terça-feira, 18 de agosto de 2009

A feira de Macaíba


A feira da cidade da Macaíba remonta ao ano de 1852, quando o negociante paraibano Fabrício Gomes Pedroza convida amigos, com os quais mantinha negócios em vários estados do Nordeste, para fundarem ali uma feira. O local nascia então como o ponto de confluência entre o sertão e a capital do estado, devido sua posição estratégica. Tinha como escoadouro natural o Rio Jundiaí, pelo qual eram embarcadas as mercadorias trazidas em lombos de jumentos por tropeiros sertanejos.


Desde o princípio, a feira se realiza aos sábados. Ocupa o espaço das três principais ruas e do largo das cinco bocas. Atrai feirantes e compradores das vizinhanças para a compra e venda de frutas, verduras, legumes, carnes, peixes, cereais, aves, ovos, caranguejos e artefatos de barro de todo feitio. Isto permite, até os dias atuais, a todo o comércio da cidade a maior movimentação da semana.


Encontramos no livro Província Submersa, de Octacílio Alecrim, um pouco do ambiente dessa feira tradicional no estado. Narra Alecrim: “A feira (...) um espetáculo sempre novo na minha imaginação, pois lá estavam o vendedor de berimbau, os cavalinhos de barro, as miniaturas de joão-galamastro, o alfenim, a pipoca, o caldo de cana “picado” tomado em cuia, o imbu, a Quixadá, o camboim, a manga matuta, o jambo branco, o ponche de maracujá com sequilho, a jabuticaba, o araçá, a guabiroba, o sujeito que fazia mágicas, o homem da pernas de pau, a cigana lendo a sorte, a melancia em talhadas, os calungas de papelão, os casais de jacu, os balaios de caranguejo, as enfieiras de goiamum, os periquitos verde-amarelos, as cestas de goiaba, as rolinhas assadas na grelha, os carneirinhos com fitas ao pescoço pra gente montar, os cegos violeiros cantando toadas, o preto Zeferino vendendo mocotó, o Aracati anunciando com um ganzá redes do Ceará, os porquinhos, os periquitos, os guinés, numa zoada incrível, a jaca dura, os caçuás de moringas de barro, os cestos de maçaranduba, os cachos de pitomba, os feixes de cana “de planta” e caiana, os pares de marrecos amarrados com embira (...)”.

E continua: “A feira era também um grande pretexto para a movimentação das moças da cidade (...) para vê-las juntas era só caminhar para a barraca de miudezas de Miguel Turco, cujo baú de miudezas (lenços, sabonetes, pós de arroz, marrafas, leques, espelhinhos, meias, vidrilhos, colares, fitas, chamalotes, sedas, crepes) transformava aquele grupo de meninas aos gritos de “quanto é” em verdadeiro bando de marrecas em arribação”.


Octacílio Alecrim ainda narra que na feira apareciam violeiros famosos, os Cantadores do Nordeste, tais como Fabião das Queimadas e o cego Aderaldo. Os cantadores faziam louvações, topavam desafios e improvisavam. As crianças tinham um lugar à parte no largo das cinco bocas. Enquanto os pais faziam as compras, elas brincavam de pau de sebo e gato no pote, bem como no carrossel armado ao lado da matriz. Tudo montado para distração da gurizada.


Atualmente algumas nuances trazidas dos tempos idos permanecem. Podemos observar no caminho para a compra das carnes, as disposições das verduras e dos legumes variados, os peixes e frutos do mar.


As transformações ocorridas na cidade a partir de 1970, com destaque para o processo de modernização e expansão do setor terciário fez com que a feira da Macaíba perdeu parte de sua importância no contexto regional. No entanto, aos 157 anos, a Feira de Macaíba se conserva como uma das mais tradicionais da zona do Potengi.

3 comentários:

  1. Anderson Lyra,
    Há alguns dias, encontrei o seu blogue. Faz um trabalho relevante para manter a história de Macaíba viva.
    Informações apresentadas aqui ajudaram-me a compor uma crônica sobre uma visita que fiz à cidade: «https://cassioserafim.com/2016/11/09/macaiba/».
    Abraço,
    Cássio Serafim.

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  2. Caro Serafim, li, com vivo interesse, a sua crônica sobre a minha terra! Sinta-se um macaibeiro! Retorne sempre! Macaíba tem coisas maravilhosas ainda!

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    1. Gostei do termo macaibeiro. Seguro que retornarei a Macaíba. É uma terra de encontos.

      Obrigado pela leitura da crônica e pela visita ao blogue.

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