segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O tronco genealógico da Família Tavares em Macaíba

Guilhermina Pedroza da Silva Tavares


Antônio Pessoa de Araújo Tavares



Dentre os 32 filhos de Fabrício Gomes Pedroza (*1809 +1872), Fundador de Macaíba e da Casa Fabrício & Cia., em Guarapes, apontaremos a descendência da quarta filha do primeiro matrimônio - Guilhermina da Silva Pedroza, cuja mãe foi d. Ana Maria da Silva e Vasconcelos.


Nascida na cidade de Areia, no Estado da Paraíba, D. Guilhermina seguiu com sua família para a nova residência no engenho Jundiaí, onde transcorreu sua infância sem maiores preocupações. Homem de vanguarda, Fabrício Pedroza custeou os estudos de Guilhermina e duas irmãs, Maria Terceira e Militina, na França, com estágios na Inglaterra e na Suiça, onde estudavam os manos Francisco e Fabrício II. Após alguns anos, retorna para Guarapes, onde o pai se estabelecera como importante comerciante.

Neste tempo, os casamentos não costumavam ser uniões românticas, mas um instrumento fundamental para selar alianças entre famílias, estabelecer associações entre clãs, expandir a rede de laços e influências políticas, econômicas e sociais. os acordos matrimoniais representavam um dos principais pilares da sociedade patriarcal. abrindo caminhos para a consolidação dos consórcios comerciais, associações em empresas e fazendas e acesso a um núcleo social privilegiado.

Com seu habitual pragmatismo, Fabrício Pedroza contratou com Francisco Pessoa de Araújo Tavares, senhor de engenho em Nazaré da Mata, Pernambuco, o casamento de três de suas filhas, com três filhos daquele senhor, cuja esposa era irmã de Ana Maria, consorte de Fabrício, que observou que essa era a melhor maneira de evitar que sua fortuna fosse dividida, no momento em que consolidara seu império.

Desta forma, casaram-se Maria Militina com Francisco Pessoa de Araújo Tavares Filho, Cândida Minervina com Miguel Pessoa de Araújo Tavares e Guilhermina com Antônio Pessoa de Araújo Tavares. Convém destacar, que estes eram irmãos de Feliciano Pereira de Lyra Tavares, pai de Augusto Tavares de Lyra.

A união romântia de Guilhermina e Antônio Tavares foi uma exceção e não uma regra da época. Ela só foi possivel porque Antônio já era um homem de posses, importante e influente e, portanto, não precisava dar satisfações a ninguém. Ele, porém, sabia que o casamento era uma arma vital para assegurar a fortuna familiar.

Guilhermina foi de fato, uma filha de Fabrício Pedroza. Não tardou em ajudar o marido a comprar uma fazenda, se desfazendo, para isso, de suas jóias para então tornar-se sócia de Antônio. Guilhermina passa a tratar a fazenda como um negócio, um empreendimento que precisava ser administrado por um espírito enérgio e pulsante como o dela. Gostava muito de ler. Falava bem frânces e um pouo de inglês, mas lia nas duas línguas. Era muito culta, ao contrário do seu marido, que só pensava nas terras e não se preocupava com os refinamentos da civilização e da cultura.

Antônio admirava a vitalidade e a compenetração de Guilhermina com os aspectos administrativos das propriedades e do lar. Ela não era apenas esposa, mas sua companheira e sócia. Desde cedo, ela gostara de impor a sua marca, o seu jeito e a sua personalidade em tudo que fazia.

Guilhermina faleceu muito jovem de parto, deixando, pelo que pude apurar até o presente, dois filhos. Esse fato prejudicou a saúde mental de Anônio Tavares, que faleceu louco em sua casa de Macaíba, incomformado. Os filhos Francisco e Maria foram entregues aos padrinhos, e se viram pobres devido o descaso na administração de suas terras.

A memória infantil me faz recordar do retrato patriarcal do major Antônio Tavares, segurando um monóculo, posto em um quarto/depósito na residência de minha tia avó, em Macaíba. Na pintura, observava-se a assinatura de Jean Bindsel, artista francês que excursionou pelo Rio Grande do Norte pintando a aristocracia açucareira e comercial.

Maria da Silva Tavares, filha de Guilhermina e Antônio, casou com o primo José Antônio de Lyra Tavares na praxe endogâmica da época. Ele filho de Feliciano Pereira de Lyra Tavares com sua primeira esposa e sobrinha Maria da Silva, filha de seu irmão José Pessoa de Araújo Tavares.

Foram filhos do casal Maria e Antônio Tavares:

F1 Cândida Tavares, faleceu criança;

F2 Francisco Tavares, casado;

F3 Ana Tavares (tia nana) casada com Maurício Dantas;

F4 Leonel Tavares, casado;

F5 Porcina Tavares casada com Francisco Ferreira da Silva, filho de Pedro Ferreira da Silva e Benedicta Maria da Conceição de Albuquerque Maranhão;
F6 Anália Tavares casada com João Confessor;

F7 Maura Tavares casada com Cicero de Queiroz Dantas;

F8 Maria Joana Tavares (solteira);

F9 João Paulo Tavares casado com Adelaide Nunes Tavares;

F10 Júlio Tavares casado com Arminda Tavares;

F11 Silvino Tavares (meu bisavô materno) casado com Sebastiana Ferreira da Silva, filha de Pedro Ferreira da Silva e Benedicta Maria da Conceição de Albuquerque Maranhão.








domingo, 30 de agosto de 2009

Descendência de João Soares da Fonseca Lima


João Soares da Fonseca Lima nasceu na cidade de Ceará-Mirim, aos 11 de setembro de 1851. Ainda jovem transferiu-se para a florescente Macaíba, atendendo convite de Fabrício Pedroza, onde se destacou nas lutas abolicionista e republicana. Por esse período já ostentava a patente de coronel da Guarda Nacional.

Ele viveu à época da divisão política macaibense entre Freire e Andrade. De um lado, os seguidores do Cel. Manuel Maurício Freire e Prudente Alecrim e do outro os seguidores do Major Antônio de Andrade Lima e a família Mesquita. Nesse cenário, o Cel. João Soares representava a conciliação dos dois lados.

Entre 1917 e 1919, foi eleito Intendente de Macaíba. Sua gestão frente ao executivo municipal foi modesta, tendo em vista a pouca arrecadação municipal. Depois, o Cel. João Soares abandonou a política e dedicou-se ao comércio. Possuiu um armazém de tecidos e outro para guardar algodão. Estes estabelecimentos situavam-se na esquina das ruas Nair Mesquita com a Teodomiro Garcia, onde atualmente está uma papelaria.

Até 1934, foi o representante do Banco do Brasil e do Banco do Natal (BANDERN) em Macaíba. A residência do Cel. João Soares ficava no lado oposto da Rua Nair Mesquita, é a casa vizinha da Escola Estadual Auta de Souza. Parte do frontispício superior da residência ainda resiste ao tempo.

Em 1875, casou-se com D. Emília Deolinda Barbalho (*1854 +1938) com a qual teve nove filhos: Humberto, Amadeu, Luiz, Maria Emília, Bárbara Heliodora, Isabel Seráfica, Josefa, Ana Odília e Marta Aurora.

O coronel Joca Soares, nos últimos anos de vida, gostava de sentar-se na praça dos “Fícus Benjamim” (Antônio de Melo Siqueira), para assistir a partida e a chegada dos veleiros repletos de fardos de algodão. Homem íntegro, prudente e de temperamento moderado, o Cel. João Soares da Fonseca Lima faleceu na manhã de cindo de novembro de 1934, aos 83 anos, sendo sepultado no dia seguinte no cemitério de São Miguel.
Foram os seguintes os filhos de Joca Soares e Emília Deolinda;

F1 Humberto Soares da Fonseca Lima c.c Zulmira Brandão, em Belém do Pará; e a 2ª vez com Antonieta. Houve dois filhos do primeiro e dez do segundo matrimônio;

F2 Amadeu Soares da Fonseca Lima, seguiu para o Amazonas junto ao irmão Humberto, durante a “febre da borracha”, onde faleceu de malária, solteiro;

F3 Luis Soares da Fonseca Lima casado com Maria Lopes, sem filhos;

F4 Maria Emília da Fonseca Loureiro (Marica), casada com Joaquim Loureiro, com duas filhas;

F5 Barbara Heliodora da Fonseca Lima (Barbinha) *18-08-1889 +17-06-1938, solteira;

F6 Isabel Seráfica da Fonseca Lima (Belica), casada com professor Paulo Vieira Nobre. Tiveram três filhos;

F7 Josefa Beatriz da Fonseca Lima (Fefinha), casada com Francisco Batista Soares Lima, com um filho;

F8 Ana Odília da Fonseca Lima (Annete), casada com Francisco Almeida, militar. Sem filhos;

F9 Marta Aurora da Fonseca Lima (Nona), casada com José Coelho, telegrafista, tiveram 07 filhos.

sábado, 29 de agosto de 2009

Sobre o Cel. João Soares da Fonseca Lima


Em 2004, com o objetivo de expandir os meus dados referentes as primeiras famílias que se estabeleceram em Macaíba, com Fabrício Pedroza, entrei em contato com o Sr. Evandro Soares Nobre, macaibense, filho de Isabel e Paulo Nobre, professor de várias gerações de macaibenses.

Evandro Nobre foi muito atencioso, legando-me um pequeno estudo com os dados necessários a uma primeira genealogia do Cel João Soares da Fonseca Lima, avô de Evandro. Com os dados vieram algumas fotos de um passeio do Grupo Auta de Souza ao Sítio de Jaime Quintas Perez (pai do escritor Renard Perez e do escultor Rossine Perez), assim como um artigo de sua lavra, acerca de sua meninice na ribeira do Jundiaí. Trascrevo para os leitores deste blog, a excelente página de mais uma memória macaibense, seguida da biografia de Joca Soares e sua descendência.

Ode à minha querida Macaíba

Evandro Soares Nobre

Sem pretender escrever poesia, apenas rasgos de lembranças passadas, nos bons tempos da infância.

Tendo nascido em 1929, lembro-me do Grupo Escolar “Auta de Souza”, onde meu pai era professor, e quando fui encaminhado para a minha primeira mestra, d. Nazaré Madruga.

A casa do meu avô era vizinha ao grupo, tinha uma janela lateral que dava para o pátio de recreio, e por onde era fácil, freqüente passar por aquele espaço, brincar no quintal e contemplar aquele jasmineiro “em flor”, que exalava um suave perfume e que depois vim a saber que o chamavam o “jasmineiro de Auta”, ficava nos fundos do grupo.

Como era gostoso aos 5 anos, brincar na praça dos pés de fícus que ficava em frente a casa do meu avô, e onde eram espalhados a sua sombra, os fardos de lã de algodão que vinham do interior do Estado.

Era fácil de compreender essas oportunidades, desde que meu avô era depositário/correspondente do Banco do Brasil, naquela época (1928-1933), e o algodão em “rama”, vinha para os armazéns e daí seguiam nos botes pela vazante do rio Jundiaí, para Natal.
Também me recordo dos pequenos sacos comportando moedas que seriam o pagamento dos fornecedores, controlados pelo meu avô, e cuja escrituração era feita pela minha tia e madrinha Annete, que trabalhava nos escritórios do meu avô, anotando tudo naqueles livros grandes, onde ali tudo era registrado com aquela bela letra.

Também me recordo da revolução de 1935, quando seguimos em debandada, para a região do Simplicios, que nos deram guarida nas casas de família, e depois da morte de meu avô, quando nos mudamos para Natal, onde até hoje passo a rememorar aqueles dias passados na minha sempre, amada e querida terra, de onde sai com a idade de 6 anos.

João Soares da Fonseca Lima era proveniente da região de Ceará-Mirim e minha avó Emília Deolinda Barbalho das famílias de Goianinha - Barbalho-Simonetti.

Lembro-me que minha mãe falava no engenho Carnaubal, dos Barbalhos, onde ia com freqüência anual, passar dias com sua irmã Annete, naquele local. Posteriormente, eu como fiscal do Banco do Brasil (carteira agrícola), visitando aquelas plagas, confirmei o fato com os descendentes/herdeiros do Carnaubal (mais ou menos entre 1964-68), Srs. Diniz e Gentil, principalmente este último, que me dizia que minha mãe e annete vinham de trem até Goianinha e daí seguiam em lombo de animais, cada uma acomodada em caçuá (cangalha forrada), viajando para o engenho.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Manoel Joaquim Teixeira de Moura (do Arvorêdo)

Manoel Joaquim Teixeira de Moura, ou, simplesmente coronel Né do Arvorêdo, era filho do coronel Estevão Moura e de d. Maria Rosa do Rego Barros. Neto paterno do comandante Manoel Teixeira Barbosa, que foi vereador em Natal e presidente da provincia, e de Ana da Costa Vasconcelos. Neto materno do coronel Joaquim José do Rego Barros, herói revolucionário de 1817 e Maria Angélica da Conceicão.

Manoel Joaquim, Nascido no engenho Ferreiro Torto em 13 de março de 1840, casou em 1868, na capela de Santana do Ferreiro Torto, com a prima d. Tereza Josefina da Fonseca e Silva, nascida em 02 de julho de 1851, filha do coronel Luís da Fonseca e Silva e Joana Teixeira da Foncesa.

O Cel. Manoel Joaquim de Moura foi latifundiário, dono de diversas propriedades que se espalhavam pelo Rio Grande do Norte e Estados visinhos, destacando-se o engenho Arvorêdo e as fazendas Cachoeirinha e Cachoeira. Todas essas propriedades, foram vendidas ou entregues aos credores para sanar dívidas com campanhas eleitorais, em um tempo no qual gastava-se com política o patrimônio pessoal.

Foi deputado provincial em dois biênios: 1884-85; 1888-89, destacando-se nestes mandatos, seu requerimento solicitando a elevação à cidade, a então vila da Macaíba. Foi presidente da Intendência de São Gonçalo do Amarante no período de 01-01-1893 a 01-01-1896, quando passou a chefia do município para o seu sobrinho Cel. Estevão César Teixeira de Moura. Muito ligado à Macaíba, também participou algumas vezes do conselho de Intendência.

Contou-me d. Noêmia de Medeiros Moura (*1912 +2005), última moradora da praça padre João Maria, e neta de Manoel Joaquim, que o coronel era muito católico e que carregava, assim como o pai, um pedaço de madeira misturado com areia, vindos da Terra Santa.

O coronel Manoel Joaquim Teixeira de Moura, faleceu em Natal dia 10 de outubro de 1913, e, seu viúva d. Tereza Josefina, em Ceará-Mirim na praia de Muriú, no dia 09 de janeiro de 1943. Foram os seguintes os filhos deste Matrimônio;

F1 Manoel Joaquim Teixeira de Moura Filho, +1948, c.c a prima Amélia Medeiros, filha do Cel. Aureliano Medeiros e Rosa Teixeira;

F2 Maria Rosa da Fonseca Moura *1870 +1957, casou-se com o primo Jerônimo Câmara;

F3 Estevão Neto da Fonseca Moura *13-05, casado com a prima Arminda da Fonseca e Silva, +1901. E a segunda vez com Ana Araújo;

F4 Major Alfredo da Fonseca Moura, c.c a prima Maria Chambre da Fonseca e Silva;

F5 Artur Moura, c.c a prima Maria Rosa de Vasconcelos Chaves;

F6 Joana Lídia, c. com o primo Sérgio da Fonseca e Silva;

F7 Teresa de Jesus Fonseca Moura *02-04, solteira;

F8 Alice Moura, casada com o primo Gabriel Câmara;

F9 Celso Nelson da Fonseca Moura *1883 +1951, c.c Estherlita *1890 +1965, filha de Alfredo Leopoldo Raposo da Câmara e Maria Emília de Paiva Câmara;

F10 Ana da Fonseca Moura *19-04, c.c Dr. João Pinto de Abreu;

F11 Áurea Moura *28-03, c.c Francisco Xavier Pereira de Brito;

F12 Corinta da Fonseca Moura *1887 +1967, c.c Semeão de Morais Barreto;

F13 Nelson *1885 +1888;

F14 Ernestina *1880;

F15 Maria Zuzana *1894 +1894;

São descendentes diretos do casal Manoel Joaquim/Tereza Josefa, o Ministro da Saúde de Castelo Branco Dr. Raimundo de Moura Brito, o hoteleiro Fernando Paiva, o Dr. Gotardo da Fonseca e Silva, Lauro Antônio de Moura dos Santos Melo, vereador e presidente da Câmara do Natal e Dulce Arimá de Moura casada com Floriano Cavalcante..

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Capoeiras - a terra que o tempo esqueceu.

O primeiro núcleo populacional de Capoeiras surgiu por volta de 1847. Eram de três a quatro famílias de escravos fugidos da perversidade de D. Maria Rosa de Moura, senhora do Engenho Ferreiro Torto.

Em 1875, o coronel Estevão José de Moura, viúvo de Maria Rosa, num gesto pioneiro alforriou todos os escravos do Engenho, assegurando aos que permanecessem um salário dentro de suas novas possibilidades e aos que já moravam no quilombo de Capoeiras, proporcionou-lhes a posse daquelas terras, que pertenciam aos domínios do Engenho.

Através da ação do Clube Abolicionista Macaíba, Augusto Severo e Prudente Alecrim trouxeram para Capoeiras escravos roubados e fugidos dos engenhos do litoral. Nessa perspectiva, Capoeiras passou a ser o centro aglutinador de toda a ação abolicionista do litoral, recebendo os escravos oriundos dos engenhos litorâneos e mesmo das cidades vizinhas.

Em 1889, com a proclamação da República, o governo republicano formaliza o registro civil. Os ex-escravos atendiam pelos seus respectivos nomes, seguidos do lugar de origem ou engenho a que pertenciam. Muitos deles passam a adotar os nomes de seus antigos senhores, foi o caso de Capoeiras, onde a população adotou o sobrenome Moura - do antigo senhor que lhes deu a liberdade e a terra.

Na comunidade existe um Cruzeiro que foi erguido pelo padre João Maria, vigário do Natal e abolicionista. Foi o padre da assistência religiosa e devocional do povoado. Primeiro ajudou ao clube abolicionista local. Depois vinha sempre uma vez por mês a Macaíba oficializar os sacramentos do batismo, casamento e unção dos moradores de Capoeiras. O cruzeiro marca o local dos eventos na falta da capela.

Por muito tempo, os moradores casavam-se entre si. Não aceitavam pessoas de outros lugares. Com o isolamento foi mantida uma espécie de organização social arcaica e uma economia baseada na agricultura.

Os agricultores compram as sementes através de um intermediário, para posteriormente vender sua produção a esse mesmo intermediário. Produzem mandioca, feijão e milho. Vendem seus produtores nas feiras de Macaíba, no sábado, e na de Bom Jesus, no domingo.

Com cerca de dois mil moradores (cerca de 230 famílias), Capoeiras tem uma escola municipal (Ensino Fundamental) e um posto de saúde. A energia veio chegar há 18 ou 20 anos atrás e a água por adutora há 14 anos.

Capoeiras ganhou infra-estrutura rodoviária, facilitando o contato com as comunidades vizinhas. Apesar de distante de Macaíba, a maior parte do trajeto é asfaltada. Dentro da comunidade, as casas são quase todas de alvenaria e as ruas principais pavimentadas. O cenário lembra uma cidade rural, com carros-de-boi circulando carregados com a colheita, gente na calçada e pouco trânsito.

Da religião herdada pelos africanos, pouco ou quase nada se vê em Capoeira dos Negros. Os fiéis do local estão divididos entre duas igrejas protestantes e uma católica, cuja padroeira é Nossa Senhora Aparecida. O grande baluarte da cultura africana é a dança do “pau furado”.

Em agosto de 2007, num reconhecimento histórico, a Ministra Matilde Ribeiro entregou o certificado de Comunidade Remanescente de Quilombo a Capoeiras.

Ainda em 2007, a Prefeitura de Macaíba, em parceria com o Ministério da Cultura através do programa Cultura Viva – Ponto de Cultura realizaram um trabalho de resgate histórico da comunidade com o filme Capoeiras dos Negros: “A terra que o tempo esqueceu”. O filme mostra os costumes, a população, as crenças, o artesanato, as danças e comidas típicas, com destaque para os próprios moradores que contarão sua história.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Perfis - Joanete Moura

Joanete Ribeiro nasceu na Rua Dr. Francisco da Cruz, em Macaíba aos 21 de maio de 1913. Filha do comerciante Vicente Paulo de Souza, depois delegado do município e de sua esposa Maria Ambrosina Marinho de Carvalho. Teve três irmãos: José Ribeiro de Paiva sobrinho, Anita Ribeiro Simplício casada com Pedro Simplício e Isabel Ribeiro casada com João Quirino.

Quando criança iniciou seus estudos com a professora D. Emília Rodrigues. Depois entrou para o Grupo Escolar Auta de Souza. Adolescente foi atriz participando de vários “dramas” de autoria de Sandoval Wanderley e ensaiados por Madrinha Beleza. Fez parte do coral de moças da Igreja Matriz. Cantava e declamava as poesias de Auta de Souza, Catulo da Paixão Cearense e Xavier de Araújo nos saraus festivos/literários da Macaíba aristocrata de outrora.

Em 1927, declamou o poema “Caminho do Sertão”, da poetiza Auta de Souza, nos salões do Grupo Escolar, para o presidente eleito Washington Luis, de passagem por Macaíba. Seis anos mais tarde, em agosto de 1933, foi convidada a declamar “Pai”, também de autoria de Auta, para o presidente Getúlio Vargas. Em ambas as ocasiões, Joanete foi convidada junto a outras senhoritas da sociedade local para formarem um corredor pelo qual os presidentes ao atravessarem eram saudados com pétalas de flores.

Aos 22 de julho de 1932, com 19 anos, consorciou-se com o senhor Francisco Canindé de Moura, da ilustre família potiguar Teixeira de Moura, bisneto do Cel. Estevão Moura senhor do engenho Ferreiro Torto e neto do Cel. Manoel Joaquim Teixeira de Moura, senhor do engenho Arvoredo. Da união nasceram os filhos: Carlos Augusto Ribeiro de Moura, casado com Ilná de Oliveira, e Maria Chambre Ribeiro de Moura Magalhães, casada com Antônio Vicente Magalhães.

Durante o noivado, em 1925, Joanete e Chico Moura participaram da recepção que a família Moura dispensou ao Príncipe Dom Pedro de Orléans e Bragança, sua esposa a Condessa Elizabeth e os filhos Dom Pedro Gastão, Dom João Maria, D. Isabel, D. Francisca e D. Tereza, no Engenho Ferreiro Torto.

Sobre a recepção aconteceu um fato interessante divulgado por um jornalista da época. Segundo o jornalista, Dona Joanete apareceu no baile com um vestido de costas nua, sendo a primeira mulher na cidade a fazer uso deste modelo de vestido, foi logo apontada pelas demais moças da sociedade com uma certa desaprovação. Acontece que logo em seguida a Princesa Elizabeth desceu as escadarias do vestuto solar, trajada com um vestido também de costas nuas todo de vidrilho, sendo parabenizada pelas mesmas senhoras e senhoritas que a poucos instantes reprovaram o de Joanete, que riu de tudo superiormente.

Joanete Moura foi uma mulher extremamente correta, de honradez invulnerável, grandeza moral e sensibilidade pura. A um caráter estóico aliava a grandeza de sua alma e a bondade de um coração sempre voltado para a ajuda ao próximo e ao bem geral.

Após o falecimento de Chico Moura, em 05 de agosto de 1968, D. Joanete Moura afastou-se por um tempo da vida social da cidade, sendo procurada constantemente por suas amigas. Em maio de 1999, com o repentino falecimento da filha Chambrinha uma lacuna irreparável abri-se em sua vida.

Com efeito, a árvore robusta, mas cansada, caiu e nunca mais se levantou da terra. A morte chegou-lhe aos 22 dias antes de completar seu nonagésimo aniversário em um hospital de Natal, a 22 de abril de 2003. Foi sepultada no cemitério de São Miguel.

Nos últimos quatro anos de sua vida, fui seu amigo e companheiro de jornadas ao passado áureo de Macaíba. Ao lado de José Inácio de Souza Neto passamos vários domingos escutando músicas clássicas e eu sempre atento a memória nostálgica de ambos. Joanete Moura legou-me estórias e histórias da Macaíba do passado. Proporcionou-me uma visão ampliada de fatos, histórias e tempos idos. Apresentou-me as figuras históricas e populares. Confidenciou-me fatos até então guardados na lembrança. Contudo, o maior legado que recebi foi a amizade verdadeira e o amor por Macaíba.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um teatro para Macaíba

Macaíba é uma cidade com tradição nas artes cênicas, desde o tempo dos Albuquerque Maranhão, apaixonados pela música e pelo teatro, na casa do velho Amaro Barreto eram encenadas peças, com a participação de jovens como Henrique Castriciano e Alberto Maranhão.É de Henrique Castriciano a peça “A promessa” que inaugurou o então teatro “Carlos Gomes”, hoje “Alberto Maranhão”. Entre as décadas de 1910 e 1930 a teatralização resumia-se aos dramas (como era inicialmente denominadas as peças).

Esses dramas eram de autoria de Isabel Freire da Cruz – Madrinha Beleza – e da professora Arcelina Fernandes, sendo geralmente encenados no palco do cinema ou no auditório do Grupo Escolar “Auta de Souza” com a participação ativa dos alunos.

No inicio dos anos 40, seu Joca Leiros – João Viterbino de Leiros, fundou com sua família e amigos um grupo de teatro amador denominado “Grêmio Dramático Auta de Souza”, considerado, à época, um dos melhores do Estado, cuja programação e desempenho artístico dos atores eram citados habitualmente no jornal “A República”.

O grêmio do mestre Joca Leiros apresentou-se no teatro Carlos Gomes em 03 de setembro de 1944 com a peça “A cigana me enganou”, comédia em três atos e cinco quadros. O espetáculo foi promovido em benefício da construção da sede do teatro de amadores de Macaíba. A direção foi de Hiran Pereira com cenografia de José Muniz. Em fevereiro de 1945, ocorreu a segunda apresentação em Natal com a comédia “Feitiço” sob a direção de Joca Leiros.

A peça foi patrocinada pela "Comissão do Esforço de Guerra", da Liga de Defesa Nacional e visava auxiliar a construção do hospital da "Sociedade Médico-Hospitalar de Macaíba".

Após tantos anos de luta, ficou patenteada a tradição cultural de Macaíba - até então notável no domínio da música e das letras com Auta de Souza, Henrique Castriciano, Tavares de Lyra, Murilo Aranha, Hugo Aranha, Octacílio Alecrim, entre outros. A sua notabilidade também na arte cênica, exercitada com amor, talento e inquestionável sentimento telúrico. Posso destacar excelentes artistas desse universo desaparecido, a começar pelo grande líder do movimento teatral João Viterbino de Leiros (autor e diretor), Luis Marinho de Carvalho (autor e contra-regra), Wilson Leiros, Antônio Coelho, Aguinaldo Ferreira, Edson Alecrim e Silva, Joanete Moura, Mary Leiros, Ivete Leiros de Almeida, Netinha Leiros de Almeida, Célia Pereira, Haydeé Marinho de Carvalho, Branilze Costa, Luzinete Silva, José Muniz, João Leiros Filho, Luzanira Lima, Walter Leiros, Geny Maciel, Valda Dantas e Doralice Xavier.

Hoje, Macaíba não tem teatro. Existe uma plêiade de jovens vocacionados mas sem apoio, capitaneados por meu amigo Juscio Marcelino, artista batalhador com inumeros serviços prestados a cultura macaibense. Macaíba precisa de uma casa de espetáculos que faça jus à tradição do passado luminoso. O "Teatro Joca Leiros" reacenderia as luzes culturais de Macaíba de há muito apagadas.

domingo, 23 de agosto de 2009

O capitão José da Penha

Durante a República Velha, o Rio Grande do Norte foi governado pela oligarquia Albuquerque Maranhão. Em 1913, estourou em todo país, uma campanha denominada de "Salvação Nacional", movimento que pretendia acabar com todas as oligarquias estaduais e eliminar o poderio dos coronéis do interior, sustentáculos do sistema dominante. Nesse contexto, surge a figura do Capitão José da Penha Alves de Souza conduzindo a cruzada oposicionista.
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Logo que chegou a Natal, José da Penha cumpriu a promessa de visitar Macaíba, onde morava seu sobrinho Vicente Paulo de Souza e terra natal dos chefes oligarcas Alberto Maranhão, Fabrício Gomes Maranhão, Augusto Severo e Augusto Tavares de Lyra. Macaíba era então considerada um verdadeiro feudo destas famílias.

Pontificavam como representantes locais do situacionismo; o coronel Manoel Maurício Freire, o major Antônio Delmiro Carneiro de Mesquita e o capitão Antônio Tavares, este último, irmão mais velho de Tavares de Lyra e o único que residia na cidade. Eram agentes oposicionistas; o major Antônio de Andrade Lima, o coronel Prudente Alecrim e o comerciante Alfrêdo Adolfo de Mesquita.

Segundo o jornal "Diário do Natal", pertencente a Elias Souto, cerca de seis mil pessoas acorreram ao cais de desembarque para ver e ouvir o intrépido "salvador". No dia anterior, surgiu um boato que iria haver tiroteio na chegada do líder oposicionista. Aconteceu o contrário exposto. Houve muita festa e passeatas acompanhadas pela banda de música do major Andrade, executando a marcha "vassourinha", jingle da campanha!!

Falando ao povo na praça "comendador Umbelino", José da Penha disse que Macaíba tinha sobrada razão para empregar, nesta luta, todas as suas energias, porque "foi precisamente aqui que manifestou-se mais violenta a situação oligárquica, arrancando, como abutre, o dinheiro do cidadão, pela extorsão e pelo abuso da força".

Alberto Maranhão, governador neste périodo, desembarcou em Macaíba discretamente na mesma hora em que se iniciava o comício. E, na casa do major Antônio Delmiro, ouviu atentamente o discurso do líder oposicionista. Os governistas entãoimprovisaram uma concentração e pediram a Alberto Maranhão que dirigisse uma palavra aos presentes. Com elegância de prumo, referindo-se ao capitão José da Penha, chamou-o de "ilustre patrício, militar correto e disciplinado, político ardoroso e espírito culto". Estava desfeita todos os desaforos pronunciados pelo capitão.

No dia seguinte, o comerciante Alfredo Adolfo de Mesquita, ofereceu um banquete no casarão da rua da Cruz, onde José da Penha ressaltou o seu compromisso com a liberdade e com sua causa.

Neste oceano de dominação oligárquica, as figuras oposicionistas do major Andrade, de Prudente Alecerim e Alfredo Adolfo de Mesquita, apesar de não terem logrado êxito na realização de seu projeto, contribuíram para mudar o rumo da história política estadual com a perseverança de seus atos. O eco de seus gritos de liberdade e a coragem demonstradas naquela recepção ao capitão José da Penha, falaram mais alto do que o bronze autoritário dos que sufocaram a liberdade.

Por fim, recolheu-se uma página de civismo de José da Penha e, ao mesmo tempo, de educação política do governador Alberto Maranhão.

sábado, 22 de agosto de 2009

O Gato Preto

A história do “Gato Preto” começa em 1924 com a inauguração de um café de propriedade do major Lídio Marinho de Oliveira onde se reuniam os membros do Grêmio Literário “Tobias Monteiro”, dirigido pelo jovem Francisco Freire da Cruz. Estava situado no marco zero da Macaíba, no conhecido Largo das Cinco Bocas, confluência das ruas Da Cruz, Prudente Alecrim, Coronel Batista, Afonso Saraiva e Baltazar Marinho.

Em 1926, o prédio foi arrendado a um paraense de nome Severino, de quem não se tem maiores informações. Em 1933, o prédio foi comprado pelo major Almir Freire que o cedeu ao seu amigo José Sólon que passou a vender caldo de cana. Contudo, o estabelecimento foi fechado pelo delegado Filadelfo Pessoa a mando do recém empossado prefeito Dr. Teodorico Freire, numa represária ao Sr. Zé Sólon já que este era amigo do Sr. Alfredo Mesquita, político da oposição.

Somente em 1937, o local volta a funcionar e a denominar-se de Bar Gato Preto, nome dado pelo dono do prédio, Sr. José Maria Magalhães, em alusão a uma cachaça em voga na época. O novo locatário era o Sr. Gustavo Lima, que devido o fechamento do estabelecimento de Zé Sólon em 1933, foi beneficiado com o aumento da clientela em seu café transformado em bar.

No período da Segunda Guerra, Gustavo Lima mantinha no Bar uma amplificadora. Em 1939, administraram o bar Gato Preto os amigos José Figueiredo da Silva (Zé Distinto) e Antônio Correia da Silva (Antônio Pelado).

Posteriormente, foram locatários do bar os senhores Alfredo de Almeida, Manoel Proeiro, Raul Morais, Magnus Tinoco, Aprígio Fundileiro, José Leite da Costa (Dedinho) e Antônio Alves de Assis.

José Maria Magalhães vendeu o imóvel a Dedinho, que por sua vez o passou a Antônio Alves de Assis em 1959. O imóvel permaneceu em posse da família até 1998 quando foi vendido por um de seus filhos, Djalma de Assis - considerado na cidade o último dono do “Gato Preto”.

Em 1976, o bar encontrava-se fechado. Mas foi alugado por “Seu” Vital que instalou no local um salão de jogos e resgatou o antigo nome com um pequeno acréscimo: A volta do Gato Preto.

No principio da década de 80, o prédio foi subdividido em quatro partes: o bar Gato Preto, o depósito da secretaria de obras, o depósito de cereais e a barbearia.

Grande foi a surpresa na cidade quando em 05 de novembro de 1999 as máquinas iniciaram a destruição do prédio para dar lugar a um armarinho, pertencente a Robson Garcia. Alguns aplaudiram, outros tantos protestaram. Seu Vital mudou-se para o prédio do antigo Cine Cometa, na rua Pedro Velho, e continuou a saga do “Gato Preto” até 05 de junho de 2001, quando alegando não ter condições de manter o negócio, encerrou mais um capítulo da história do bar.

Conheci o Bar “Gato Preto” já em um cenário profuso e difuso, tecido de conversas banais, de palavras soltas, malandras e perdidas, boatos e chafurdos soprados pelo errante vento da esquina. Tudo coisas fugidias: prateleiras, garrafas solitárias, sinucas, bilhares. Todos os seus notívagos são, agora, incertos, dispersos e derradeiros.

Embora modificado fisicamente, o seu espírito vive. Basta contemplá-lo e deixar-se envolver na sua atmosfera densa. Era um bar, com todos os seus habitantes: figuras opacas, empíricas, etílicas. Todos reduzidos a humanidade comum.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Solar Caxangá - Instituto Pró Memória de Macaíba

Em 1850, o Coronel da Guarda Nacional Estevão José Barbosa de Moura (1810-1891), deputado provincial, presidente da Província do RN por três vezes, construiu a primeira ponte sobre o Rio Jundiaí e abriu a estrada Macaíba / Natal, via Mangabeira, tudo por conta própria. Terminou a contrução de um casarão moldado em estilo Colonial Português, para sede da sua Fazenda Barra (primeira denominação de Caxangá).

Fato é que, a Câmara Municipal de São Gonçalo do Amarante, em sessão do dia 20 de fevereiro de 1850, tomou conhecimento da representação do mesmo Coronel Estevão, ao presidente da província, contra seu vizinho da fazenda Coité (hoje Macaíba), Capitão Francisco Pedro Bandeira de Melo, o qual possuia sua casa em lugar central no Largo das Cinco Bocas; onde atualmente uma loja de móveis ocupa o espaço. É que o capitão estreitara a estrada que desce para o porto de Coité. Em 28 de fevereiro de 1850, a Câmara, tendo em vista a informação do fiscal, ordenou que Bandeira de Melo recuasse a cerca do Coité.

Aos 09 de outubro de 1852, a filha do Cel. Estevão Moura, D. Ana Joaquina de Moura casou-se em grande festa na capela de Santana do engenho Ferreiro Torto, com o Bacharel José Moreira Brandão Castelo Branco (1828-1895), e recebeu como dote paterno aquela fazenda Barra, na qual instalou-se de 1852 a 1857, nascendo-lhe ali 05 de seus 10 filhos. De 1858 a 1867, a casa ficou fechada por motivo de o Dr. Moreira Brandão ter sido eleito várias vezes deputado provincial, indo a família residir em Natal durante esse tempo.

O solar era ocupado pelos ilutres moradores somente nos fins de semana. Em 1868, a família da D. Ana Joaquina de Moura Brandão, volta em definitivo para fixar residêcia no Casarão do "Largo de São José".

Porém, devido à morte prematura da primeira proprietária D. Ana, aos 25 anos em 1870, o viúvo Dr. Moreira Brandão deixou o Solar repleto de recordações, passando a morar na Capital com os filhos.

O solar mais uma vez fechado, passa agora a velar a imagem desventurada de sua senhora. Aos 04 de dezembro de 1881, o Cel. Estevão Moura, já septuagenário, casou-se pela 2° vez com D. Generosa Antônia de Lima em cerimônia oficiada pelo padre João Maria em oratório privado da fazenda Barra, onde o casal passa a residir; sem as grandes recepções de outrora que fizeram do coronel o grande anfitrião do estado.

Dando um aspecto sombrio à velha morada, em janeiro de 1891 faleceu o coronel Estevão José de Moura, aos 81 anos. Sua esposa e filho, nascido em 1890, permaneceram na fazenda até 1895, ano em que venderam a propriedade ao senhor Lourenço José Correia, agricultor de São Gonçalo.

Através de uma cópia da escritura de venda da fazenda Barra, datada de 3 de maio de 1895, pertencente à senhora Rayanne Magalhães, descendente de Estevão Moura, tomamos conhecimento das dimensões do sítio: “limitando-se o fundo do sítio para o sul com a rua Luís Fernandes, para Norte com o patrimônio de São José, a partir da Casa de José Expedito à casa de Targino de tal, para o Nordeste com terras de Morada de Joaquim Manuel T. de Moura e a partir da casa do referido Targino à Cachoeira Cunha – Ary passando a linha entre as casas de Francisca Maria da Conceição e Claudino Matias do Nascimento pelo poente com a rua Visconde do Rio Branco”. Ao todo 360 hectares, quase dois terços da atual sede Macaibense.

O novo proprietário passou a cultivar as terras da fazenda, mas desativou as antigas senzalas que ficavam perto de uma cacimba ainda hoje existente. Todavia, como Lourenço Correia não tinha pouso certo, em 1897 vendeu a propriedade ao coronel Afonso Saraiva de Albuquerque Maranhão (1853-1924), procedente de Palmeira dos Índios, Alagoas.

Em 1900, desgostoso com a política local, o coronel Afonso Saraiva doou a fazenda ao major Antônio de Andrade Lima, seu sobrinho, recolhendo-se ao seu recém-construído solar da Avenida Junqueira Aires, em Natal, onde mais tarde moraria o escritor Luís da Câmara Cascudo.

O major Antônio de Andrade Lima (1879-1950) era sobrinho legítimo da esposa de Afonso Saraiva, dona Apolônia Viana (1862-1911) irmã de dona Marcionila Viana de Andrade Lima(1854-1896), mãe Antônio Andrade. O major Andrade casou em junho de 1901 com dona Maria Segunda de Andrade Lima (1878-1978), e passaram a residir no solar, visto que a antiga casa do major, localizada na Rua João Pessoa, foi transformada na fábrica de Cigarros XV de Novembro. O local, hoje, é um restaurante.

O casal Andrade Lima organizaram saraus que marcaram época na vida da cidade. Otacílio Alecrim (1906-1968), escritor macaibense, tomou parte em uma dessas festas e relata, em seu livro Província Submersa, nestes termos: “E o piano agachado a um canto do salão, parecia um cágado de ébano a tocar do-ré-mi-fá-sol-lá...” E continua: “Na residência do major Andrade, situada em recuo no começo da ladeira do barro vermelho, teve com sua filha Consuelo (...) minhas primeiras tertúlias literárias. E assinala os autores preferidos na leitura da Casa: José de Alencar, Machado de Assis, Bilac, Afrânio Peixoto e Eça de Queiroz. [...]

Antes conhecido como o Casarão do Largo de São José, foi o major Andrade quem batizou a casa de "Solar Caxangá".

Esse foi o período no qual o Solar Caxangá foi o centro de propaganda oposicionista no Município. O major Andrade e o coronel Prudente Alecrim (1863-1927) pontificam na condição dos patronos da oposição política em Macaíba, uma vez que lutaram nas décadas de 1910-20-30, contra o chefe situacionista, coronel Manoel Maurício Freire (1863-1927). Após a morte de Neco Freire, o major Andrade foi o primeiro prefeito após a Revolução de 1930, tendo sido eleito por duas vezes Deputado Estadual.

O major Antônio de Andrade promoveu a recepção de pessoas ilustres em seu belo Caxangá, entre os quais o capitão José da Penha, que lá hospedou-se quando veio a Macaíba para um comício contra os Albuquerque Maranhão. Por lá também passaram Café Filho, tenente Ernesto Geisel, Tavares de Lyra, Auta de Souza, Augusto Severo, Henrique Castriciano, além da Família Imperial do Brasil, que em 1925 visitou o estado. Na oportunidade, o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, filho da princesa Isabel, teria dito: “Passar uma tarde sob o refúgio das árvores do Solar Caxangá, melhor coisa não há.”

Após uma longa enfermidade, o major Antônio de Andrade Lima faleceu em seu solar, no mês de setembro de 1951. A viúva, dona Segunda, mulher espartana e de refinada educação, assumiu a direção da casa junto com a filha Consuelo, e, meses depois, passaram a receber convidados para o famoso "chá da Califórnia", servido com todo o rigor e etiqueta. Entre políticos e intelectuais, parentes e amigos, a casa estava sempre cheia.

Maria Segunda faleceu em maio de 1978, dois meses antes de completar 100 anos. No período de 1981 a 1989 o histórico solar foi alugado por dona Consuelo Andrade à Prefeitura de Macaíba e deu lugar à Secretaria de Trabalho e Ação Social.

Nessa época, Macaíba iniciava um processo de crescimento desordenado e vários espaços antes pertencentes à Fazenda Barra, com sede no Caxangá, foram invadidos, dando origem a projetos habitacionais de futuros bairros: Campo da Santa Cruz, Campo das Mangueiras, Conjunto Residencial Fabrício Pedrosa, Alto Raiz, Morada da Fé, Ruas Eloy de Souza e Coité.

Tudo terra desmembrada do Caxangá. Por fim, observou-se, em abril de 1998, à derrubada das árvores e seus jardins. Tudo loteado. Com isso, as novas gerações ficaram impedidas de ver uma das paisagens mais bonitas e bucólicas de Macaíba. Em abril de 1989, o solar do Caxangá foi recuperado por Eudes Cordeiro, sobrinho de dona Consuelo, falecida nesse mesmo ano. Dona Inah Andrade, irmã mais nova, foi morar no local com os filhos Letúrzia e Ronald e o neto Eudes Cordeiro, o qual veio a falecer em fevereiro de 1998.

No início de 2001, dona Letúrzia decidiu retirar-se do solar com a mãe e os demais familiares para uma casa próxima. Na ocasião alegou que a mudança era necessária devido aos altos custos de manutenção do casarão e das recordações tristes que guardava da antiga morada. Por fim, em março de 2001 faleceu dona Inah Andrade e, em maio do mesmo ano dona Letúrzia.

O solar do Caxangá permaneceu fechado durante todo o ano de 2001 até janeiro do ano seguinte, quando foi comprado por um grupo de pessoas preocupadas com a preservação do patrimônio histórico do município. No dia 12 de maio de 2002, o grupo fundou no antigo casarão o Instituto Pró-Memória de Macaíba, tendo como objetivo principal o resgate e a preservação dos bens culturais desse município. Nesse mesmo ano, o prédio do solar foi tombado como Patrimônio Histórico do Estado, pela Fundação José Augusto. Hoje, o Instituto dispõe de uma ampla biblioteca, de um vasto acervo iconográfico e espaços históricos da maior relevância, além de ambientes para lançamentos de livros, exposições de artes plásticas, saraus literários etc.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Descendência do capitão Vicente de Andrade Lima

Vicente de Andrade Lima casado com Marcionila Viana de Andrade Lima;
F1 Major Antônio de Andrade Lima casado com Maria Segunda de Andrade Lima;

N1 Inalda de Andrade Lima;

N2 Consuêlo de Andrade Lima;

N3 Dr. Vicente de Andrade Lima casado em primeiras núpcias com Margarida Sabóia de Andrade Lima;

N4 Inah de Andrade Cordeiro casou-se com Francisco Cordeiro de Araújo.

F2 Anna Cândida de Andrade Ribeiro Dantas (Nininha) casou-se com Carlos Manoel Ribeiro Dantas;

N5 Iracema Dantas Gondim casou-se com João Gualberto de Carvalho Gondim;

N6 Marcionila Dantas Moura casou-se com Joaquim Manoel Teixeira de Moura Filho;

N7 Maria Ribeiro Dantas;

N8 Carlos Alberto de Andrade Dantas casou-se com Emery Ceneviva Dantas;

N9 João Cândido de Andrade Dantas casou-se com Ligia Vieira da Cunha;

N10 Armando de Andrade Ribeiro Dantas;

N11 Alberto de Andrade Ribeiro Dantas casou-se com Neusa Vi­llar Ribeiro Dantas;

N12 Octávio de Andrade Ribeiro Dantas casou-se com Eunice Ferreira Dantas;

N13 Julieta Dantas da Silva casou-se com Luis Martins Silva;

N14 Mário de Andrade Ribeiro Dantas.
F3 Vicente de Andrade Lima *Macaíba/RN 23/05/1881 +Macaíba/RN 21/12/1896, sem sucessão.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O primeiro administrador de Macaíba

Ainda nos tempos imperiais, onde as vilas eram governadas pelos vereadores sob a presidência de um Administrador Municipal, esse cargo em Macaíba, foi ocupado pela primeira vez por Vicente de Andrade Lima, fazendeiro, criador, capitão da Guarda Nacional. Nascido em Recife/PE aos 10/01/1829, filho de Antônio Gonçalves de Andrade Lima +Rio de Janeiro/RJ 13/06/1851 e Joana Maria de Lyra Andrade +Rio de Janeiro/RJ 22/03/1859. Teve quatro irmãos, José, Fabrício, Joaquim e Cândida de Andrade Lima.

Vicente Andrade era sobrinho materno de Fabrício Gomes Pedroza, fundador de Macaíba e senhor da Casa Fabrício & Cia. em Guarapes, onde o jovem Vicente iniciou-se como guarda-livros. Posteriormente estabeleceu-se como fazendeiro e criador, além de comerciante de algodão. Em pleno florescimento torna-se homem abastardo e influente na vila. Respeitado e acatado pelos amigos é eleito para o cargo de Deputado Provincial no biênio de 1878-79, reelegendo-se para 1880-81. No tempo do Império do Brasil, o poder executivo municipal era de responsabilidade das câmaras municipais. Eram eleitos seis membros para um mandato de um triênio. Dentre os vereadores, o mais votado era escolhido o Administrador municipal, podendo haver reeleição.
De 1879-81 o capitão Vicente de Andrade Lima torna-se o primeiro administrador de Macaíba, tendo como vereadores: coronel Thomaz Antônio de Mello, capitão Virtulino Francisco do Rego Barros, Manoel Pegado Rodrigues Machado e o coronel João Baptista de Albuquerque Vasconcelos.

Pertenceu a uma geração de brasileiros que assistiu ao declínio das instituições monárquicas e participou na pregação dos ideais abolicionistas (através de sua participação do Clube abolicionista Padre Dantas) e dos ideais republicanos, quando esteve ao lado de Pedro velho de Albuquerque Maranhão, assinando o manifesto republicano de novembro de 1871.

O capitão da Guarda Nacional Vicente de Andrade Lima, faleceu em Macaíba no dia 22 de outubro de 1884.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A feira de Macaíba


A feira da cidade da Macaíba remonta ao ano de 1852, quando o negociante paraibano Fabrício Gomes Pedroza convida amigos, com os quais mantinha negócios em vários estados do Nordeste, para fundarem ali uma feira. O local nascia então como o ponto de confluência entre o sertão e a capital do estado, devido sua posição estratégica. Tinha como escoadouro natural o Rio Jundiaí, pelo qual eram embarcadas as mercadorias trazidas em lombos de jumentos por tropeiros sertanejos.


Desde o princípio, a feira se realiza aos sábados. Ocupa o espaço das três principais ruas e do largo das cinco bocas. Atrai feirantes e compradores das vizinhanças para a compra e venda de frutas, verduras, legumes, carnes, peixes, cereais, aves, ovos, caranguejos e artefatos de barro de todo feitio. Isto permite, até os dias atuais, a todo o comércio da cidade a maior movimentação da semana.


Encontramos no livro Província Submersa, de Octacílio Alecrim, um pouco do ambiente dessa feira tradicional no estado. Narra Alecrim: “A feira (...) um espetáculo sempre novo na minha imaginação, pois lá estavam o vendedor de berimbau, os cavalinhos de barro, as miniaturas de joão-galamastro, o alfenim, a pipoca, o caldo de cana “picado” tomado em cuia, o imbu, a Quixadá, o camboim, a manga matuta, o jambo branco, o ponche de maracujá com sequilho, a jabuticaba, o araçá, a guabiroba, o sujeito que fazia mágicas, o homem da pernas de pau, a cigana lendo a sorte, a melancia em talhadas, os calungas de papelão, os casais de jacu, os balaios de caranguejo, as enfieiras de goiamum, os periquitos verde-amarelos, as cestas de goiaba, as rolinhas assadas na grelha, os carneirinhos com fitas ao pescoço pra gente montar, os cegos violeiros cantando toadas, o preto Zeferino vendendo mocotó, o Aracati anunciando com um ganzá redes do Ceará, os porquinhos, os periquitos, os guinés, numa zoada incrível, a jaca dura, os caçuás de moringas de barro, os cestos de maçaranduba, os cachos de pitomba, os feixes de cana “de planta” e caiana, os pares de marrecos amarrados com embira (...)”.

E continua: “A feira era também um grande pretexto para a movimentação das moças da cidade (...) para vê-las juntas era só caminhar para a barraca de miudezas de Miguel Turco, cujo baú de miudezas (lenços, sabonetes, pós de arroz, marrafas, leques, espelhinhos, meias, vidrilhos, colares, fitas, chamalotes, sedas, crepes) transformava aquele grupo de meninas aos gritos de “quanto é” em verdadeiro bando de marrecas em arribação”.


Octacílio Alecrim ainda narra que na feira apareciam violeiros famosos, os Cantadores do Nordeste, tais como Fabião das Queimadas e o cego Aderaldo. Os cantadores faziam louvações, topavam desafios e improvisavam. As crianças tinham um lugar à parte no largo das cinco bocas. Enquanto os pais faziam as compras, elas brincavam de pau de sebo e gato no pote, bem como no carrossel armado ao lado da matriz. Tudo montado para distração da gurizada.


Atualmente algumas nuances trazidas dos tempos idos permanecem. Podemos observar no caminho para a compra das carnes, as disposições das verduras e dos legumes variados, os peixes e frutos do mar.


As transformações ocorridas na cidade a partir de 1970, com destaque para o processo de modernização e expansão do setor terciário fez com que a feira da Macaíba perdeu parte de sua importância no contexto regional. No entanto, aos 157 anos, a Feira de Macaíba se conserva como uma das mais tradicionais da zona do Potengi.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Perfis - Antônio Vicente Magalhães

Oriundo de uma família pertencente à velha aristocracia urbana, que se firmara na política de Macaíba no inicio da República, Antônio Vicente Magalhães – Tonito - foi o primogênito de Erneide Alecrim da Silva Magalhães e José Maria Magalhães. Foram seus avós maternos o Sr. Alberto Silva e Maria Zebina de Melo Alecrim, esta última, filha do Coronel Prudente Alecrim, presidente da Intendência de Macaíba e Deputado Estadual. Gente de prol e mando a oitenta anos passados. Tonito teve três irmãos; José Gilberto – Betinho, Rosa Maria e Alberto Silva Neto – Betuca.

Criado em um ambiente rígido e sem preocupação, Tonito iniciou sua formação no colégio Santo Antônio Marista. No final da década de 40, quando da última visita ao Estado do Dr. Octacílio Alecrim, irmão de sua avó Maria Zebina, foi para o Rio de Janeiro, completar os estudos, passando a residir com o tio ilustre. No apartamento de Octacílio, na praia do Flamengo, o jovem Tonito acompanhou as intermináveis conversas sobre literatura e Proust entre Octacílio e os amigos Otto Maria Carpeux, Sérgio Buarque de Holanda e Lúcia Miguel Pereira.

Não quis permanecer no Rio de Janeiro, pois seu tio Octacílio “pegava muito em seu pé” para que estudasse. Em 1951, retorna a Macaíba e entregando-se a carreira comercial, assume a gerencia da padaria Brasil, fundada por seu avô Alberto Ferreira da Silva, ex-intendente de Macaíba e cuja administração do estabelecimento legara ao genro José Maria Magalhães, funcionário Federal.

No dia 20 de abril de 1953, foi celebrado o casamento entre Tonito e Maria Chambre Ribeiro de Moura (*1934 +1999), da ilustre família Moura, dos engenhos Ferreiro Torto e Arvoredo, tradicionalíssimos na história estadual, filha de Francisco Canindé de Moura e Joanete Ribeiro de Moura. Ligavam-se pelo casamento, duas importantes famílias macaibenses. Do enlace, houve dois filhos Marcos Antônio e José Maria, cinco netos e cinco bisnetos.

Guardo do amigo Tonito a mais viva recordação de um homem simples e respirando sua terra com a força evocativa do passado. Quando da organização do Museu Ferreiro Torto, visitei-o várias vezes ora em seu refúgio de Jandaíra, ora em sua chácara de Traíras, interior de Macaíba, onde se recolheu repleto de lembranças.

Nascido em 27 de março de 1935, Antônio Vicente Magalhães faleceu no último dia 07 de julho. Essa lembrança é uma homenagem, escrita sob o impacto do desaparecimento de um verdadeiro macaibense.

domingo, 16 de agosto de 2009

Influência indígena na formação das famílias tradicionais do Seridó

O povoamento do Seridó teve o seu inicio no ano de 1670. Poucos anos decorridos da implantação dos primeiros currais de gado na região, eclodiu o chamado Levante do Gentio Tapuia ou Guerra dos Bárbaros. Esse conflito levou às terras seridoenses, milhares de combatentes empenhados na luta ao tapuia levantado. Indígenas e negros obedecendo ao comando de oficiais brancos obviamente.

Ocorreu uma intensa miscigenação entre os componentes do partido português e as índias Tapuias, Janduís, Canindés e Pegas ou Ariús. Tais tribos, eram aqueles mesmos Tarairiús descritos pelos cronistas flamengos, que se ocuparam da descrição do período da ocupação Holandesa. Segundo as descrições feitas por aqueles cronistas, que privaram com os Tapuias, as mulheres dessas tribos eram de estatura inferior aos varões da mesma raça, gordas e “muito bonitas de cara”. Ademais, eram muito obedientes e serviçais aos seus maridos.

Como é óbvio, à falta de mulheres ditas “civilizadas”, as mulheres tapuias serviam, perfeitamente, para fazer companhia àqueles combatentes do partido português. Todas as famílias tradicionais do Seridó ainda conservam lendas, já muito diluídas pelo tempo, narrando a ocorrência de terem aquelas famílias, entre as suas ancestrais, algumas índias “pegadas a laço”, depois de terem sido perseguidas pelos vaqueiros, a cavalo, sendo algumas delas “pegadas a dente de cachorro”. Geralmente, segundo tais lendas, os vaqueiros se deparavam, um belo dia, com rastros deixados por pés femininos, daí se seguindo a perseguição, que culminava com o aprisionamento da pobre índia, quase sempre refugiada nos altos das serranias.

A tradição oral da região do Acarí e Carnaúba dos Dantas conta haver sido aprisionada, pelos vaqueiros de Caetano Dantas Corrêa, uma dessas índias, ainda adolescente e muito feroz. Capturada, foi posta no tronco, para amansar, tal qual se fazia com os barbatões pegos no mato! Após amansada, aquela índia foi batizada com o nome de Micaela, tornando-se, com o passar do tempo, uma espécie de governanta da casa de seu amo. Inclusive, segundo a lenda, Micaela veio a ter filhos de um descendente do próprio Caetano.

Somente depois de 1720 ocorreu a chegada de mulheres brancas ao Seridó. Já havia cessado o perigo dos levantes tapuias. Muitos dos veteranos combatentes do período da guerra permaneceram no Seridó, acompanhados de suas companheiras tapuias, já cercados de filhos. Tais posseiros requereram datas e sesmarias nas terras seridoenses, ali ficando para o resto de suas vidas.

A tradição aponta ainda, a existência de Custódia de Amorim Valcácer, casada com o português Pedro Ferreira das Neves, por volta de 1690, e que, junto ao marido, foram os troncos genealógicos, de quase todas as famílias tradicionais do Seridó. Custódia foi a indígena mais citada, nos estudos sobre a formação das famílias, de toda a região.

Cita-se também a pessoa de certa índia, companheira de Manoel Vaz Varejão, veterano da guerra dos Bárbaros, sesmeiro nas Piranhas e nas Espinharas; tendo sido, esse casal, os avós maternos de Caetano Dantas Correa e de José Dantas Corrêa, de quem descendem os Dantas do Seridó e do Teixeira, respectivamente.

Houve uma outra indígena, companheira do padre Daniel Gomes Alarcón, que deu origem a numerosa família seridoense. Outro sesmeiro, Tomás Diniz da Penha, igualmente “encostou-se” a uma índia, com imensa descendência pelo sertão seridoense.

Infelizmente, a documentação eclesiástica daquela época, tanto vinculada à Freguesia de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Piancó (Pombal) como à Freguesia da Gloriosa Santana do Seridó (Caicó), desapareceu, ou foi consumida pelo tempo. No Caicó, somente sobrevive a documentação posterior a 1788, abrangendo, portanto, um período cronológico posterior àqueles em que ocorreram os casamentos, batizados e óbitos de muitos dos descendentes daqueles Tapuias.

Por volta de 1820 desapareceram, nos registros caicoenses, as referencias a indivíduos indígenas, ainda como tais considerados. Mas, tudo gente pobre, sem quaisquer relacionamentos com as famílias tradicionais.

Um detalhe me ia escapando: Aqueles primeiros sesmeiros do Seridó, muitos deles remanescentes da campanha bélica contra os tapuias, e cujas filhas eram produto do cruzamento do branco com a índia, sempre procuravam casar seus rebentos, com rapazes portugueses. Estes, chegados pobres ao Brasil, eram convidados pelos patriarcas do Seridó a se casarem com suas filhas, recebendo tais portugueses um compensador dote matrimonial. Os portugueses vindos, pelo século XVIII para o Seridó, eram, na sua maioria, oriundos dos Açores e do Norte de Portugal.

Nos livros mais antigos do Seridó, ainda encontram-se referências a muitos desses reinóis. Todos os velhos cronistas, desde o período da ocupação neerlandesa, sempre exaltaram a beleza das mulheres mamelucas. Aliás, essas mulheres sempre foram as escolhidas para fins matrimoniais. Os primeiros povoadores do Seridó souberam acolher, da cultura indígena, tudo aquilo que de proveitoso contivesse, o que facilitou a adaptação daqueles desbravadores às difíceis condições ambientais do sertão.

sábado, 15 de agosto de 2009

A neta da Redentora!

A Família Imperial em Natal. D. Tereza está em primeiro plano. O menino sentado no sofá é D. João Maria, amigo de Câmara Cascudo, seguido por D. Pedro de Alcântara (pai) e D. Pedro Gastão. Sentadas estão D. Francisca Maria - Duquesa de Bragança, D. Elizabeth (mãe) e D. Isabel - Condessa de Paris.

D. Tereza, atualmente.

Abro espaço no blog para lembrar que em 18 de junho p.p., completou 90 anos D. Tereza Maria Teodora de Orléans e Bragança, última neta viva da Princesa Imperial D. Isabel do Brasil.

Dona Teresa Teodora de Orléans e Bragança e Dobrzensky de Dobrzenicz, nasceu durante o exílio da Família Imperial, na França, em Boulogne-sur-Seine no dia 18 de Junho de 1919. É a última filha de D. Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança e de sua esposa, a Condessa Elisabeth Dobrzensky de Dobrzenicz. No dia 7 de Outubro de 1957, em Sintra, Portugal, casou com Ernesto Antônio Maria Martorell y Calderó (1921-1985). Tiveram duas filhas.

Na década de 20 do século passado, durante o governo de José Augusto Bezerra de Medeiros, após revogado o banimento da Família Imperial, D. Tereza Maria ainda criança, visitou grande parte dos Estados brasileiros acompanhando seus país, que ansiosos para apresentar o Brasil aos filhos, empreenderam numa dessas jornadas, uma viagem ao Rio Grande do Norte.

Um fato curioso ocorreu durante a visita da família a Natal. Como os paquetes não podiam atracar no porto, devido um antigo obstáculo existe no Rio Potengi, uma lancha foi buscar os ilustres visitantes que deveriam passar do navio para a lancha, atravessando uma prancha que estava escorregadia sob um mar agitado.

Quando chegou a vez de Dom Pedro, pai de D. Tereza, uma onda mais forte que as outras fê-lo escorregar e cair na água. Não foi fácil recolhê-lo. Os jovens príncipes e sua mãe ficaram nervosos, mas, felizmente, Dom Pedro achou graça da situação.

No Cais da Tavares de Lyra, após as congratulações, D. Tereza e sua família entraram no carro do governador, enquanto Dom Pedro, todo molhado, saudava as pessoas que estavam aglomeradas nas ruas.

Para azar do Príncipe do Grão-Pará, o automóvel do governador José Augusto possuía os bancos forrados de vermelho e, ao chegarem no Palácio Potengi, o terno do pai de D. Tereza já estava seco e bem branco na frente, mas todo vermelho atrás, o que causou muitas risadas dos pequenos príncipes visitantes.

Essa história me foi transmitida pela própria princesa D. Tereza, durante uma ligação que fiz no início de 2006, para sua casa em Petrópolis. Sabendo da estadia de sua Alteza no Brasil, liguei para ver se ela ainda lembrava da visita ao Rio Grande do Norte. Falando um português com forte sotaque francês, a princesa não só lembrava de Natal, mas também de duas cidades próximas onde foram recepcionados pelas comunidades locais. Essas cidades foram Macaíba e São José de Mipibú.

Eu já sabia pelos depoimentos de pessoas antigas da cidade, que a recepção em Macaíba foi no Engenho Ferreiro Torto, com passagens pela Matriz e pela capela de São José e Solar Caxangá. D. Tereza enviou, meses depois, um postal feito a partir de uma foto da família no estúdio de João Galvão, em Natal, confeccionado para ser distribuído com as famílias anfitriãs.

No ano passado a princesa Tereza de Orleans e Bragança cedeu ao historiador Pedro Corrêa do Lago, sua inédita coleção de fotografias da Família Imperial, especialmente de sua avó D. Isabel. Todas as fotos foram publicadas no livro Coleção Princesa Isabel (432 páginas) e oferece ao leitor não especializado um delicioso passeio pelo século XIX. Para os estudiosos do período, no entanto, a descoberta é o começo de uma história. Fazem parte do acervo os maiores fotógrafos que atuavam no Brasil – como Ferrez, Revert Henry Klumb, Augusto Stahl, Alberto Henschel, Georges Leuzinger, Juan Gutiérrez, Augusto Malta – e também profissionais menos conhecidos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A praça Augusto Severo da Ribeira


A praça Augusto Severo, é um dos mais importantes logradouros públicos da zona de preservação da cidade, visto encontrar-se encravado entre os históricos e imponentes prédios do Teatro Alberto Maranhão, antigo prédio do Grupo Escolar Augusto Severo, antigo prédio da Escola Doméstica e o Palacete do Cel. Juvino Barreto (atualmente Colégio Salesiano). Os melhores e mais luxuosos hotéis da cidade, ficavam nessa praça, eram o “Internacional”, “Hotel dos Leões” e o “Avenida”. O melhor cinema da cidade, o Politeama, ficava lá. A própria Estação Ferroviária estava encravada na “Augusto Severo”, era o primeiro local visto pelos passageiros que desembarcavam na cidade do sol a um século! Além de tudo isso, a praça constitui-se o recanto mais bonito e aprazível de toda a Ribeira.

Toda aquela área no inicio do século passado era um pântano. O rio Potengi jogava suas águas no local, durante as marés altas. Em 11 de Junho de 1904, Natal estava tomada por pessoas do sertão, fugindo da seca. O então governador, Dr. Augusto Tavares de Lyra, empregou toda aquela gente na construção e no ajardinamento da futura Praça Augusto Severo.

O desenho do logradouro foi de autoria do arquiteto Herculano Ramos. O sucesso da construção da praça foi logo constatado pelas inúmeras doações da sociedade natalense, de plantas para ornarem os jardins. Eram palmeiras imperiais, fícus benjamim e oitizeiros.

Os serviços foram imediatamente iniciados. Foi construída um sistema de galerias para escoamento das águas, todas as ruas que contornam a praça pelo norte e pelo poente foram calçadas. Foi instalada ainda, uma belíssima fonte de ferro fundido, de alto valor artístico, confeccionada na Europa. A mesma representava a figura de uma indiazinha estrangulando uma jibóia que jorrava água pela boca. Atualmente, essa bela fonte encontra-se nos jardins do Palácio Potengi.

A Praça Augusto Severo, ocupava uma vastíssima área, com o tempo reduzida, inclusive para construção do terminal rodoviário. Atualmente, encontra-se sendo todo reestruturado aquele logradouro, sendo-lhe devolvido seus contornos legais. Apresentava alamedas de oitizeiros e de palmeiras imperiais, havendo ainda um canal de cimento e pedra que circulava parte da praça, como uma serpentina, que enchia de acordo com as águas do rio Potengi. Esse canal, era cortado por três pontes rústicas de bambu oriental.

Bem próximo do palacete de Inês Maranhão Barreto, (esposa de Juvino Barreto e irmã de Augusto Severo), havia um caramanchão com uma cobertura de quatro águas, envolvido por belas trepadeiras. Havia ainda um grandioso coreto com estrutura de ferro, também importado da França e um medalhão em pedestal com a efígie de Nísia Floresta.

Mas sem duvidas, o que mais nos chama a atenção é a estátua em bronze do grande aeronauta Augusto Severo de Albuquerque Maranhão. Foi inaugurada em 1913, por ocasião do transcurso do 11° aniversário da morte do pioneiro da nossa aviação. Essa estátua firma-se em um cone de granito, o qual contem uma placa de bronze com panorama de Paris e o PAX contornando a torre Eiffel, e um medalhão com a efígie de George Sachet, mecânico do PAX. Todo o monumento é projeto do escultor francês, Edmond Badoche, executado por Corbiniano Vilaça.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Matriz de Nossa Senhora da Conceição da Macaíba


Comumente a história de nossos municípios Norte Riograndeses começa por uma fazenda de gado e logo em seguida a construção da capela canonicamente permitida e liturgicamente abençoada.
Em Macaíba a pedra fundamental da futura matriz foi lançada em 1858 numa cerimônia festiva presenciada pelos vigários de Natal e de São Gonçalo, Bartolomeu da Rocha Fagundes e José Paulo Monteiro de Lima respectivamente, pelo Major Fabrício Gomes Pedroza (1809-1872). Em 1868, no livro velho de contas da matriz está registrado que Fabrício e a esposa Dona Luiza Florinda, “doaram em suas terças dez braças de terra em cada lado, inclusive o terreno em que se acha edificada a mesma capela (...) a Nª Sª. Da Conceição, Santos Cosme e Damião.”

A capela era a afirmação da fé e denunciava o desenvolvimento econômico local, a densidade demográfica em ritmo crescente, o numero apreciável de almas em “estado de comunhão”, certa massa residencial fixando cristãos, vivendo em tarefas regulares.

A capela declarava a presença da vida social organizada sobre bases estáveis, concordância do esforço com a produção asseguradora da existência familiar, o grupo vicial capaz de prestar mutua proteção e auxilio, sistema de caminhos articulando as propriedades esparsas ao centro mais povoado, facilitando transito e escoamento das safras, costumes cristãos, unificadores e solidários com a figura simples da capelinha, pastoreando o rebanho imóvel, reunido à voz lenta do pequenino sino emocional.

No dia 08 de dezembro de 1869 procedeu-se a benção da capela-mor do templo, somente então concluída. As obras de construção do templo foram reiniciadas em 1882, sob a direção de Frei José Antônio Maria Ibiapina. Em 1883 a igreja foi elevada à categoria de matriz, a mesma foi concluída entre os anos de 1896 e 1904, sob a direção do padre Marcos Santiago. Trata-se de um templo de grandes proporções, o qual possui estilo gótico e barroco.


Segundo a arquiteta Jeane Nesi do IPHAN, “A matriz é constituída de capela-mor, nave principal, galerias laterais, sacristia, coro e um amplo consistório”. E continua, “A fachada principal, emoldurada por cornija, apresenta um corpo central constituído por três portas de acesso, superpostas por igual numero de janelas rasgadas, com guarda-corpos de ferro. As portas são de madeira, assentadas em vãos de vergas em arco pleno, apresentando ainda bandeiras de ferro. O templo possui frontispício curvilíneo, com um relógio no centro e uma inscrição – 1882 – data que assinala o inicio de sua construção”.


A imagem da padroeira Nossa Senhora da Conceição foi doada pelo Major Fabrício Pedroza, sua esposa Luiza Florinda e suas filhas que organizaram uma bonita procissão de Guarapes de onde retiraram a imagem da capela vinda de Portugal, para a futura matriz.


Seguindo o gesto do fundador, as famílias que formavam o povoado a convite de Fabrício, passaram a doar imagens de suas devoções para a matriz, assim tivemos; Lyra Tavares – São Francisco e São Luis Gonzaga, Costa Alecrim – Santa Terezinha e Sagrado Coração de Jesus, Moura – Santo Estevão e São José, Mesquita – Nª Sª. do Carmo, Albuquerque Maranhão – Senhor Morto e Ressuscitado, Andrade Lima – Sagrado Coração de Maria, Freire – Santa Bárbara, Castriciano de Souza – Senhor dos Passos.


Faltava-nos tão somente a criação de uma paróquia, o que asseguraria a presença contínua do pároco em caráter permanente, inamovível, garantia positiva da seqüência na assistência religiosa e no conselho moral no seio doméstico. As assembléias legislativas Provinciais eram as responsáveis por esta criação. Através de um requerimento do deputado Dr. Francisco Chaves, senhor do Ferreiro Torto, foi sancionada a lei provincial N° 815 de 07 de Dezembro de 1877, que criou a paróquia de Nª Sª. da Conceição. Entretanto, decorridos seis anos de instituída, e não havendo padre para provê-la, a lei caducou, passando por outra Lei provincial.


Segundo o historiador Câmara Cascudo em seu livro História das paróquias do Rio Grande do norte, pág. 24, “MACAÍBA – Nª Sª. da Conceição – Criada pela lei n° 876 de 17 de Março de 1883, que suprimira a freguesia de São Gonçalo. Vigário, padre Manoel Fernandes Lustosa”.

Já o historiador conterrâneo Dr. Augusto Tavares de Lyra em seu opúsculo História do Rio Grande do Norte, pág. 362 assim se expressa: "Freguesia de Macaíba: Criada pela Lei Provincial n. 876, de 17 de março de 1883, que suprimiu a freguesia de São Gonçalo, transferindo para ali a sua sede. A sua invocação é N. S. da Conceição.”.

Todos os demais historiadores são unânimes a esta data. Os documentos oficiais da antiga assembléia imperial, atualmente arquivados no nosso respeitado Instituto Histórico e Geográfico do RN, também são claros e precisos nesta perspectiva.


O templo sofreu outras modificações significativas. Em 1938, o padre Alexandrino Suassuna, mandou derrubar as 12 tribunas onde antigamente ficavam as famílias ilustres do município. As suas antigas telhas de cerâmicas foram substituídas por outras, de fibrocimento.

O coro teve o seu assoalho de madeira trocado por outro de laje em 1968, as galerias laterais receberam um forro de laje, no mesmo ano, bem como o altar-mor. Suas grossas paredes guardam ainda hoje, restos mortais de pessoas ilustres para o município e para o estado, em belíssimos ossuários.


quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Famílias "Fabricianas" - A família Alecrim

Prudente Gabriel da Costa Alecrim *Guarapes 21-02-1863 +Macaíba/RN 20-03-1927, casou-se em Macaíba, aos 12-06-1886 com sua prima Anna Pulchéria Pessoa de Mello *Pilar/PB 11-03-1870 +Natal/RN 03-11-1943, filha do Comendador Umbelino Freire de Gouveia Mello e Maria Amélia da Veiga Pessoa de Mello;

F1 Maria Zebina de Mello Alecrim da Silva *Macaíba/RN 1888 +Macaíba/RN 20-08-1970, casada em Macaíba, aos 10-1910 com o primo Alberto Ferreira da Silva *Macaíba/RN 14-03-1885 +Macaíba/RN 20-09-1970, filho do capitão Manoel Thomaz Ferreira da Silva e D. Maria José da Costa Alecrim;

F2 Manoel de Mello Alecrim *Macaíba/RN 02-08-1890 +Macaíba/RN 04-08-1890;

F3 Maria da Graça de Mello Alecrim *Macaíba/RN 15-10-1891 +Natal/RN 1961;

F4 Maria Terceira de Mello Alecrim *Macaíba/RN 30-11-1892 +Macaíba/RN 1897;

F5 Maria Terceira de Mello Alecrim Dantas *Macaíba/RN 12-11-1893 +Natal/RN 03-04-1983, casada aos 18-07-1909 com o Dr. Virgilio Otávio Pacheco Dantas *Ceará-Mirim/RN 06-01-1882 +Natal/RN 25-01-1972, filho de Cel. Felismino do Rego Dantas Noronha e de Maria Amélia Pereira Pacheco;

F6 Dulce Eliza de Mello Alecrim Freire *Macaíba/RN 05-05-1896 +Macaíba 04-02-1935, casada aos 1919 com Leonel Freire de Oliveira *Macaíba 21-04-1895 +Natal 25-03-1962, filho de Eulália Freire de Oliveira e Lídio Marinho de Oliveira;

F7 Maria de Mello Alecrim *Macaíba 12-07-1900 +Macaíba 14-07-1900;

F8 Gilberto de Mello Alecrim c.c Amélia Gionatázio *24-08;

F9 Octacílio de Mello Alecrim *Macaíba 17-11-1906 +Rio de Janeiro/RJ 09-1968 c.c Hermínia Gonçalves da Barra. Sem sucessão.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Octacílio de Mello Alecrim

Nasceu em Macaíba (RN), aos 17 de Novembro de 1906. Filho de uma ilustre família macaibense, sendo seu pai o abastardo coronel da guarda nacional Prudente Gabriel da Costa Alecrim, que fôra deputado estadual e intendente (prefeito) de Macaíba em 1914-16. E sua genitora a senhora Anna Pulchéria Pessoa de Mello Alecrim, pianista reconhecida em todo o nordeste. Esse casal organizava em seu belo casarão colonial, saraus e bailes onde se discutiam a boa música e literatura. Essas tertúlias marcaram intensamente a vida sociocultural da cidade provinciana e com certeza despertou em Octacílio o amor pela cultura.

Aprendeu o "Beabá" em uma velha cartilha com a mãe Donana Alecrim, passou depois para o tradicional grupo escolar "Auta de Souza", onde foi aluno de Bartolomeu Fagundes e Arcelina Fernandes, neste período, recebeu várias medalhas por vencer concursos de poesia. Foi então, transferido para o colégio de santo Antônio, neste estabelecimento, fundou um jornal e um grêmio.
Terminou os estudos secundários no ateneu, era então oficial de gabinete do governador José Augusto aos 17 anos, representando-o em várias solenidades.

Junto com Edgard Barbosa, Nilo Pereira entre outros, trabalhou no jornal "A Republica", indo estudar direito no Recife, onde não parou de colaborar em jornais, destacando­-se o Jornal do Comércio daquela cidade. Na faculdade foi um líder nato, fundou a revista “Cultura Agitação”, junto aos colegas Álvaro Lins e Aderbal Jurema. Em 1930, de férias em sua cidade natal, onde se hospedou em casa da mana Maria Zebina Alecrim, escreve seu primeiro opúsculo ­ TAMATIÃO, panfleto satirizando a revolução de 1930. Depois mudou-se para o Rio de Janeiro, onde aproximou-se do grupo brasileiro de estudos proustianos, formado por intelectuais como Oto Maria Carpeaux, Sérgio Buarque de Holanda, Lúcia Miguel Pereira entre outros. Viajou pela França aprofundando seus estudos sobre Proust.

Otacílio Alecrim escreveu e publicou vários artigos em jornais e revistas, como Diário de Pernambuco, Correio da Manhã, Jornal de Letras (RJ), Revista de Antropofagia (SP), Revista Nordeste (PE) e Revista Branca (RJ), sendo a maior parte deles sobre o tema da escrita proustiana.
Em 1957 Otacílio Alecrim publicou um livro de memórias intitulado "Província Submersa", que pode ser considerado uma autobiografia. Nele, o autor realiza um verdadeiro retorno, à moda de Proust, às suas origens e ao tempo de infância, resgatando com sensibilidade inúmeros tipos de sua terra. Ao final do volume, há ainda uma série de depoimentos sobre o autor, assinados por escritores e historiadores da literatura.

Dr. Otacílio foi o ensaísta delicado e penetrante que teve o prazer das sensações intelectuais refinadas. Daí sua atração por Proust, a quem são dedicadas algumas de suas melhores páginas.

Casado com dona Hermínia Gonçalves da Barra Alecrim e não tendo filhos, criou dois sobrinhos, um dele, senhor Antônio Vicente Magalhães e outro dela, senhor Luis Eduardo Gonçalves.
Otacílio de Mello Alecrim faleceu de problemas cardíacos em seu apartamento na praia do flamengo no Rio de Janeiro aos 02 de setembro de 1968, sendo sepultado no cemitério São João Batista. Sua ultima visita ao estado e a sua terra natal se deu em 1966, visitou amigos e parentes e veio defender os interesses de um partido político do qual era advogado.

Macaíba foi a “Província Submersa” de Octacílio Alecrim. Era um nostálgico de sua gente, de sua paisagem. Um barresiano, como salientou Américo de Oliveira Costa. Um Proustiano que ele foi todo inteiro, com sua Combray para as horas íntimas – aquelas em que o orador se escondia no menino, na infância perdida.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A Nobreza Potiguar


Durante o Império do Brasil, a nobreza nobilitada limitou-se a 4 Barões, sendo um dos quais com Grandeza, o que na prática lhe dava o direito de usar coroa de Visconde no lugar da de Barão. Três Barões eram ligados diretamente a terra. Só um recebeu a mercê pelos relevantes serviços prestados ao País. Segue um resumo da vida e das atividades destes nobres potiguares.


Felipe Nery de Carvalho e Silva
*Santa do Matos/RN 02-05-1829 +Assú/RN 16-08-1893.

Filho de

Antônio da Silva de Carvalho *13-01-1784 +09-08-1877
Maria da Silva Veloso *23-12-1799 +18-05-1827

Casado com

Belisária Wanderley *Assú/RN 13-10-1836 +Natal/RN 13-04-1933

Atividades

Fazendeiro;
Deputado Provincial de 1878-79; 1880-81;

Títulos

Tenente Coronel da Guarda Nacional;
Barão de Serra Branca por Decreto Imperial de 19.08.1888 (gabinete João Alfredo).


Manoel Varela do Nascimento
*Ceará-Mirim/RN 24-12-1803 +Ceará-Mirim/RN 01-03-1881
Filho de

José Félix da Silva
Ana Teixeira Varela

Casado com

Bernarda Dantas da Silva *17-06-1821 +16-07-1890

Filhos

José Félix da Silva Varela;
Manoel Varela do Nascimento Filho;
Ana Teixeira da Silva Varela;
Alexandre Varela do Nascimento;
Isabel Duarte Xavier Varela;
Carlos Varela do Nascimento.

Atividades

Agricultor;
Senhor de Engenho;
Deputado provincial de 1868-69;
Presidente da Câmara Municipal de Extremoz de 1829-32 e 1837-40;
Terceiro Vice-Presidente da Província do RN em 1868.

Títulos
Alferes do Exército Imperial, por patente de 24-04-1828;
Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional de Natal em 16-07-1852;
Barão do Ceará-Mirim por Decreto Imperial 22-06-1874 (gabinete Visconde do Rio Branco).


Miguel Ribeiro Dantas
*São José de Mipibú/RN 09-05-1799 +São José de Mipibú/RN 14-06-1881
Filho de

José da Silva Leite
Joana Maria Dantas
Casado com

Maria Florência Viana *1810 + antes de 1834
Filho

Miguel Ribeiro Dantas Junior

Atividades

Senhor de Engenho;
Presidente da Câmara de São José de Mipibú de 07-01-1833 a 07-01-1837;

Títulos
Coronel Comandante Superior da Guarda Nacional;
Barão de Mipibú por decreto imperial de 28-03-1877 (Gabinete Duque de Caxias).


Luis Gonzaga de Brito Guerra
*Campo Grande/RN 27-09-1818 +Caraúbas/RN 06-06-1896

Filho de

Simão Gomes de Brito
Maria Madalena de Medeiros

Casado com

1ª vez com Maria Mafalda de Oliveira *05-01-1823 +18-12-1860;
2ª vez com Josefina Augustina da Nóbrega *11-04-1827 +15-03-1879;
3ª vez com Maria das Mercês de Oliveira *14-05-1858 +02-07-1896.

Filhos

Adrião R. de Brito;
Pautilia;
Lino Constâncio de Brito Guerra;
Maria Ubalda de Brito Guerra;
Maria dos Anjos de Oliveira;
Simôa Gaudiosa de Oliveira;
Neomisia de Brito Guerra;
Margarida Emília de Oliveira;
Teófilo Olegário de Brito Guerra;
Pedro;
Paulo;
Adrião R. de Brito (II);
Boaventura Seráfico de Brito Guerra;
João Crisóstomo de Brito Guerra;
Apolônia Ferreira da Nóbrega;
Felipe Nery de Brito Guerra;
Filomena de Brito Guerra;
Andrônico de Brito Guerra;
Luis Gonzaga de Brito Guerra Filho;
Maria Joana de Brito Guerra;
Eufrozina de Brito Guerra;
Eusebia de Brito Guerra;
José Calazans de Brito Guerra;

Atividades

Bacharel em ciências jurídicas e sociais em Olinda, turma de 1839;
Juiz municipal de Caicó e Acarí de 28-03 a 20-07-1843;
Juiz municipal de Assú, Santana do Matos e Angicos em 02-09-1843 e 17-04-1848;
Juiz de direito de Martins em 17-11-1851. Serviu de junho de 1852 a junho de 1858;
Juiz de direito em Assú de 18-09-1858 até 06-11-1873;
Deputado provincial nos biênios de 1842-43, 1846-47, 1856-57;
1° vice-presidente da província do RN em 20-07-1868;
Presidente da província do RN em 19-08-1868 a 01-09-1868;
Presidente Desembargador da Relação de Ouro Preto/MG 07-11-1873, 04-03-1882 e 20-06-1885;
Desembargador da Relação do Ceará 10-10-1885 a 23-10-1885;
Ministro do Supremo Tribunal de Justiça 23-03-1887 a 10-11-1888.

Títulos

Conselheiro por Carta Imperial de 02-04-1874;
Cavaleiro da Imperial Ordem da Rosa 20-02-1875;
Comendador da Imperial Ordem de Cristo 25-06-1881;
Barão do Assú “com grandeza” por Decreto Imperial de 17-11-1888 (Gabinete João Alfredo).

domingo, 9 de agosto de 2009

O casarão dos Guarapes



A noticia de que o deputado federal Rogério Marinho, aprovou emenda ao orçamento da União no valor de 250 mil reais, para ajudar nas obras de restauração do Casarão dos Guarapes, em Macaíba, me fez recordar a visita que fiz em junho de 2008 ao antigo entreposto comercial de maior repercussão no Rio Grande do Norte. Um ano depois, sábado passado dia 08 de agosto, conduzi uma equipe de reportagem da tv Ponta Negra, que deseja ajudar a campanha pela restauração do lugar.


Na tarde do último sábado de junho, eu, Cecília e o historiador Wagner Rodrigues nos dirigimos à comunidade de Guarapes, município da Macaíba. Buscávamos chegar ao antigo núcleo irradiante de um alto talento econômico. Iniciamos o percurso subindo pela ladeira que o mato torna difícil. Chicoteados pelos galhos, saudados pelos confetes das folhas verdes e úmidas surge a antiga morada. No cimo do monte, a casa grande do Major Fabrício Pedroza (1809-1872).


O casarão nos mira pelas suas quatro pupilas apagadas de suas janelas escancaradas. Os umbrais de cantaria sustentam o corpo imóvel e morto através do tempo. O mato irrompe pelas salas onde soara a voz de mando do lendário Fabrício Gomes Pedroza. Salões, salas, saguões amplos, altos, convidativos, remetem ao ambiente desaparecido.


Local para as pescarias do agreste e passagem para o sertão do Seridó e zona do oeste. De tudo havia para vender e permutar. Era a casa inesgotável, o recurso financiador, a força poderosa.


Os armazéns transformaram a paisagem ribeirinha, hoje sobre os alicerces dos antigos armazéns, o assoreamento possibilitou o manto do manguezal estender-se: multiplicado e avassalador. Subindo este rio vazio e azul, vinte navios estrangeiros atravessavam o atlântico com a consignação que nunca mais se repetiu: Inglaterra – Guarapes.


A casa grande lembra as zonas de bombardeio. Lá, surgem inumeráveis escavações, bocarras, furnas, grotões que a vegetação disfarça. São os caçadores de tesouros, os sonhos de dinheiro enterrado, os teimosos que acreditam nas botijas de moedas de ouro, admitindo, contra toda lógica viva, que Fabrício Pedroza enterrasse dinheiro na terra em vez de tê-lo na mão segura e firme.


O passado está presente. Sensível. O ambiente acolhedor, a alegria instintiva e a paisagem deslumbrante não podem afastar a sensação nostálgica do passado, daquele centro sonoro, eficiente e tumultuoso, agora silencioso, sombrio, povoado de sombras e de saudades.


Trago um tijolo velho, pedra do solar da família. Pretendo guardá-lo como uma homenagem aos antepassados. Na volta para casa, as primeiras curvas ocultam a casa grande que permanece, no alto, de sentinela ao rio adormecido.