terça-feira, 2 de maio de 2017

Engenho Cunhaú: resumo histórico.

Ruínas da Casa Grande, em primeiro plano na esquerda e da Capela, 1930.




A história do Engenho Cunhaú se confunde com a história do Rio Grande do Norte, remontando a 02 de maio de 1604, quando Jerônimo de Albuquerque Maranhão, Capitão-mor do Rio Grande do Norte, fundador da cidade do Natal e Conquistador do Maranhão, primeiro brasileiro nato a comandar uma esquadra naval, doou seus filhos Antônio e Matias de Albuquerque Maranhão, uma sesmaria de cinco mil braças quadradas (12.100 hectares), na várzea de Cunhaú, começando d’onde entra a ribeira do Pequerí, e duas léguas em Canguaretama.

No entanto, foi próprio Jerônimo quem construiu o engenho que tomou o nome de Nossa Senhora das Cadeias de Cunhaú, segundo Borges da Fonseca, no ano de 1624, e foi necessariamente o seu primeiro senhor e cuja morte e sepultamento se deu na capela do engenho, no dia 11 de fevereiro de 1618. Foram seus herdeiros e continuadores os ditos filhos Matias e Antônio.  Em 1630 o Engenho Cunhaú produzia de 6 a 7.000 arrobas (88 a 103 toneladas) de açúcar, ali morando 60 ou 70 homens com suas respectivas famílias. Era o principal núcleo econômico do RN.


A capela edificada por Jerônimo de Albuquerque Maranhão, quando da fundação do engenho em 1604, foi retratada pelo artista flamengo Frans Post, constando do famoso livro Barléu, que trata do período em que o Conde João Maurício de Nassau-Siegen governou o Brasil Holandês.

No ano de 1625, alguns índios potiguares foram levados a Holanda onde descreveram, entre outras terras, as várzeas do Cunhaú. Em relatório de 1638, João Maurício de Nassau informa que o Engenho Cunhaú foi confiscado e vendido em 15 de junho de 1637, ao Sargento-mor Jorge Garstman e ao Conselheiro político Baltazar Wyntges.

Narra o historiador José Higino:

Vendido à o senhor George Graesman, Sargento-Major, e Baltazar Wijntjes, da companhia o engenho em Cunhaú, que pertenceu à Antonio de Albuquerque, junto com todas as terras, plantações de cana, pastos, bosques, casas, e outros edifícios do mesmo que pertenciam a Albuquerque, juntando a isso 30 negros e 20 pares de bois, como hoje eles se encontram neste engenho ou à ele serão juntados. Os compradores pagarão para isto uma soma de 60000 florins, que deverá ser pago em seis pagamentos em seis anos consecutivos. O primeiro pagamento será em q de junho 1638 e ultimo cairá em 1643, e cada pagamento será exatamente 1/6 do total. Uma vez que os pagamentos tenham sido feito os compradores receberão uma transferência que descreve o engenho e tudo que nele se encontra e os compradores passarão à ser donos e mestres deste engenho. O que implica que os compradores não estão mais obrigados a cumprirem com esta soma, com relação à este engenho E tudo que nele se encontra, e em geral e sua pessoa, Im Solidum renuncirende Exceptie mibus ordines, diviscores et excus siones, e todos os seus pertences deste momento e no futuro, submetendo estes a todos os direitos e a justiça.

Ainda em 1641, os moradores de Cunhaú requereram aos donos do engenho a construção de uma nova capela em outro lugar, como segue:

Os moradores da freguesia de Cunhaú requerem permissão para construir uma nova igreja visto que a igrejinha que faz parte do engenho é muito pequena. Do outro lado Willem Becx e Hugo Graswinckel, senhores do engenho supracitado, mostraram que seria prejudicial para o engenho caso a igreja fosse construída em outro local como é a intenção dos moradores. Assim foi decidido para a satisfação dos dois partidos se apostilar este requerimento, que os habitantes tem permissão de aumentar a igreja do engenho, mas que eles não podem construir uma outra igreja em um outro local.

O Sargento-mor e o Conselheiro venderam a propriedade a Willem Beck e Hugo Graswinckel. Este, em 1642, vendeu a sua parte a Mathijs Beck. Em 16 de julho de 1645, ocorreu o massacre dentro da capela de Nossa Senhora das Candeias de Cunhaú, quando o engenho aparece, segundo Nieuhof, pertencendo a Gonsalvo de Oliveira, sendo finalmente incendiado no dia 16 de maio de 1647.


Detalhe de um desenho de Fraz Post, encartado no livro de Barléus, onde aparece a capela e o engenho Cunhaú, em 1645.


Após a expulsão dos holandeses, Matias de Albuquerque Maranhão retoma a sua antiga propriedade. Casado com Isabel da Câmara foi sucedido por seu filho o Mestre de Campo Antônio de Albuquerque da Câmara. Antônio faleceu sem sucessão e deixou Cunhaú para seu sobrinho Luís de Albuquerque Maranhão, pois o seu irmão Afonso já era falecido. A descoberta do inventário do mestre de campo, pelo pesquisador alagoense Fábio Arruda, que me indicou a fonte, possibilitou introduzir essa sucessão que até então não existia, nem mesmo para os autores clássicos.

Fato é que Luís, embora casado, também faleceu sem sucessão e deixou Cunhaú para seu irmão Gaspar de Albuquerque Maranhão, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real Portuguesa, que ali vivia em 1758, transferindo ao seu filho André de Albuquerque Maranhão a propriedade. André foi casado com Antônia Josefa do Espírito Santo Ribeiro. Falecido em 1806, herda-lhe o Cunhaú o filho homônimo André de Albuquerque Maranhão – Andrezinho de Cunhaú, martirizado em 26  de abril de 1817, sendo sucedido por sua mãe Antônia Josefa, que faleceu também no dia 26 de abril de 1817, horas depois de ter sido avisada da morte do filho.

O engenho Cunhaú foi então novamente confiscado e vendido pelo governo provincial a Vicente Ferreira Cardoso e Antônio Manuel Monteiro. Todos os homens da família estavam implicados na Revolução de 1817, e foram presos. É ai que surge a figura enérgica de D. Luzia Antônia de Albuquerque Maranhão, irmã de Andrezinho, que arrendou a propriedade aos dois arrematantes e multiplicou a fortuna, tocando os negócios da família até o retorno de seu filho Dendé Arco Verde, que estudava na Europa, para assumir o engenho.

O brigadeiro André de Albuquerque Maranhão Arco Verde é talvez o mais opulento senhor da Casa de Cunhaú, sendo apontado pela tradição como a pessoa que vingou a morte de seu tio Andrezinho, ao mesmo tempo em que foi um entusiasta pela causa indígena, já naquele tempo, sendo nomeado pelo governo imperial, diretor dos índios do RN. Com o seu falecimento em julho de 1857, o engenho Cunhaú ficou sob os cuidados de Amaro Carneiro Bezerra Cavalcanti, testamenteiro e tutor dos filhos de Arco Verde: Luzia Antônia, Carolina Amélia, Afonso, Amélia Carolina e as gêmeas Emília Idalina e Idalina Emília.

Amaro Bezerra era também herdeiro de uma parte de Cunhaú via seu casamento com D. Maria Cândida de Albuquerque Maranhão, irmã de Dendé. Assim, constituiu-se um condomínio para a administração não só do Engenho Cunhaú como do espólio do brigadeiro que englobava as terras de outros engenhos, a saber Outeiro, Cruzeiro, Estrela, Ilha do Maranhão. Pouco a pouco os filhos do brigadeiro Dendé Arco Verde foram se desfazendo de suas partes em Cunhaú.


Imagem original de Nossa Senhora das Candeias de Cunhaú, a imagem mais antiga documentada do RN, aqui chegou com a devoção de Jerônimo de Albuquerque Maranhão.


As constantes desavenças em torno do espólio foi desestimulando os herdeiros em continuar com o histórico solar de Cunhaú. Homem ligado a política, chefe do Partido Liberal no Rio Grande do Norte, Amaro Bezerra não tardou em espoliar a fortuna dos órfãos em proveito próprio. Segundo Câmara Cascudo:

Dr. Amaro Bezerra conseguiu arrebanhá-la e hipotecou-a aos Parente Viana do Recife. Os administradores do velho engenho eram de uma rapinagem sórdida (...) até as telhas da capela de trezentos anos venderam para cobrir uma estribaria no engenho Outeiro. O Dr. Amaro Bezerra foi alienando todo o patrimônio em que pôde influir. (...) antes da hipoteca o Dr. Amaro vendeu, peça por peça, a máquina perfeita que o Brigadeiro Dendé Arcoverde comprou no Recife. A capela foi revolvida de baixo para cima à cata de ouro. Toda a portada de pedra caiu sob as picaretas ávidas do tesouro escondido. Parte da casa-grande, sem concerto nenhum, abateu. (CASCUDO, p.113, 2008).

Amaro Bezerra faleceu em Niterói, Rio de Janeiro, no dia 23 de novembro de 1890. Sua esposa e filhos o sucederam na meação que detinha no engenho Cunhaú. Eles perderam, melancolicamente, a sua parte em Cunhaú, no ano de 1895, quando a massa falida da casa comercial de Paula, Eloy & Cia., repassaram ao comerciante do Recife Parente Viana, uma hipoteca no valor de 100 mil réis do Dr. Amaro Bezerra, representada pelas terras.

No dia 09 de novembro de 1893, Fabrício Maranhão encaminhou petição ao juiz de direito da comarca de Canguaretama, Vicente Simões Pereira de Lemos, onde afirmava ser consenhor do engenho Cunhaú, juntamente com Maria Fortunata Carneiro Bezerra Cavalcanti, Manoel Caetano de Albuquerque Melo e o menor Amaro Carneiro, esposa, genro e filho de Amaro Bezerra, residentes no Recife/PE; Joaquim Francisco de Vasconcelos, residente no Bom Passar e outros.

Curiosamente, o engenho Cunhaú passou a pertencer novamente aos Albuquerque Maranhão, só que no ramo pernambucano da família de Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão e nunca mais aos senhores hereditários. Parente Viana repassou sua parte do engenho Cunhaú ao coronel Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão, em 1896, tornando-se Cunhaú o fornecedor da cana para a usina Ilha do Maranhão.

Fabrício e seu irmão Alberto Maranhão venderam o antigo engenho aos comerciantes Francisco Ribeiro Bessa e Francisco Neri de quem o coronel Manoel Otoni de Araújo Lima comprou, em 1919.

Manoel Otoni de Araújo Lima construiu um novo engenho, não aproveitando as ruínas do antigo, realizando a construção num local mais afastado da capela. Em 1920, saiu a primeira safra de açúcar da propriedade.

O engenho foi administrado por mais de 30 anos por Manoel Otoni, auxiliado por seu filho Otávio de Araújo Lima, que em 1924 veio morar no engenho. Em 1929, receberam em Cunhaú os escritores Luís da Câmara Cascudo e Mário de Andrade, que estava em visita ao Rio Grande do Norte. Manoel Otoni faleceu no dia 05 de março de 1952 aos 53 anos. Em maio de 1953, Hugo de Araújo Lima assumiu o comando da propriedade.


No dia 03 de dezembro de 1969 o engenho moeu pela última vez. As grandes usinas começavam a serem instaladas na região, comprando toda a safra dos pequenos produtores. Em julho de 1970 foram vendidos os últimos 500 sacos de açúcar, com grande prejuízo. Hugo de Araújo Lima faleceu no dia 25 de agosto de 1996, passando, desde então, a responsabilidade pela propriedade a sua esposa e filhos, a saber: Darcilia Dantas de Araújo Lima, Otávio, Ilca, Ilma, Suzana Maria e Valério.

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